Lava Jato investiga gigantes de trading por propina

Reuters
A Polícia Federal deflagrou operação para cumprir 11 mandados de prisão preventiva

As gigantes internacionais Vitol, Trafigura, Glencore e outras companhias são suspeitas de pagamento de propina a funcionários da Petrobras em um esquema de corrupção na área de trading da petroleira estatal com pagamentos ilegais de US$ 31 milhões, disse o Ministério Público Federal hoje (5), em uma nova fase da operação Lava Jato.

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Segundo comunicado do MPF, há suspeitas de que Vitol, Trafigura e Glencore efetuaram pagamentos de propinas para intermediários e funcionários da Petrobras entre 2011 e 2014 nos montantes, respectivamente, de US$ 5,1 milhões, US$ 6,1 milhões e US$ 4,1 milhões relacionados a mais de 160 operações de compra e venda de derivados de petróleo e aluguel de tanques para estocagem.

O valor total de propina investigado pela chamada Operação Sem Limites, 57ª fase da Lava Jato, inclui outras empresas não nomeadas pelo MPF, além das três gigantes, e os procuradores disseram que há evidências de que ao menos dois funcionários da Petrobras com envolvimento no esquema ainda estão em exercício.

“As provas apontam que havia um esquema em que empresas investigadas pagavam propinas a funcionários da Petrobras para obter facilidades, conseguir preços mais vantajosos e realizar contratos com maior frequência”, disse o MPF em comunicado.

“Esses negócios diziam respeito à compra e venda (trading) no mercado internacional de óleos combustíveis (produtos utilizados para geração de energia térmica em fornos e caldeiras), gasóleo de vácuo (produto intermediário utilizado na produção de gasolina e diesel), bunker (combustível utilizado nos motores de navio) e asfalto”, acrescentou.

Como parte das investigações, a Polícia Federal deflagrou operação para cumprir 11 mandados de prisão preventiva, 26 de busca e apreensão e seis intimações para tomada de depoimento, além de sequestros de imóveis e bloqueio de valores dos suspeitos, que não foram identificados de imediato.

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Segundo a PF, as medidas judiciais autorizadas têm como objetivo “fazer cessar a atividade delitiva, aprofundar o rastreamento dos recursos de origem criminosa (propina) e a conclusão da investigação policial em todas as suas circunstâncias”.

Os investigados responderão pela prática, dentre outros, dos crimes de corrupção, organização criminosa, crimes financeiros e de lavagem de dinheiro, disse a PF em nota.

POUCOS CENTAVOS, MUITOS MILHÕES

Segundo os procuradores, os subornos beneficiavam funcionários da gerência executiva de Marketing e Comercialização, subordinada à diretoria de Abastecimento da Petrobras, e as operações que subsidiaram os esquemas de corrupção foram conduzidas pelo escritório da estatal em Houston, no Estado norte-americano do Texas, e pelo centro de operações no Rio de Janeiro.

Parte do esquema consistia em viabilizar um preço mais vantajoso às tradings na compra ou venda do petróleo ou derivados mediante pagamento de propina, segundo o MPF.

“As operações da área comercial da Petrobras no mercado internacional constituem um ambiente propício para o surgimento e pulverização de esquemas de corrupção, já que o volume negociado é muito grande e poucos centavos a mais, nas negociações diárias, podem render milhões de dólares ao final do mês em propina”, disse a procuradora Jerusa Burmann Viecili, integrante da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, no comunicado do MPF.

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Recentemente, a Vitol e a Glencore fizeram aquisições na área de distribuição de combustíveis no Brasil. A holandesa Vitol adquiriu 50% da empresa Rodoil, em outubro, enquanto a suíça Glencore levou 78% da Ale Combustíveis, também neste ano.

Até o fechamento desta reportagem, a Petrobras não respondeu ao pedido de entrevista.

Em fases anteriores da Lava Jato, a empresa afirmou que vem colaborando com as investigações e que é reconhecida pelas autoridades no Brasil e no exterior como vítima dos atos desvendados pela Lava Jato.

Não foi possível contatar imediatamente representantes das três empresas de trading citadas pelos procuradores.

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