Três sírias contam os impactos positivos do conflito e da crise

Tornar-se um empreendedor de sucesso em qualquer país não é uma tarefa simples. E em zonas de conflito, como a Síria, a criação de startups não é só um desejo de ter um negócio próprio, mas um meio de sobrevivência que impulsiona a recuperação econômica do país. Se o mundo fosse além das principais notícias sobre essa região, o empreendedorismo poderia ser um meio para a paz.

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A atual guerra civil síria começou em 2011 e já matou cerca de 400 mil pessoas, segundo o relatório da ONU. No entanto, apesar das probabilidades adversas, mais de 150 startups foram lançadas no país em 2017, segundo o World Economic Forum.

Para a empresária síria Salam Al-Nukta, 24 anos, a crise se tornou parte da vida cotidiana. Ela não só se acostumou com o conflito como também aprendeu a canalizar as dificuldades para causar um impacto positivo em sua comunidade e nos jovens, que constituem a maior porcentagem de cidadãos no país.“Quando você está no meio dessa situação e a enfrenta, percebe ser possível fazer coisas que nunca imaginou”, conta.

Intrépida defensora do empreendedorismo e da tecnologia, Salam é cofundadora da ChangeMakers, uma iniciativa liderada por jovens e destinada a reduzir a desigualdade de gêneros na tecnologia. O programa tem como objetivo preparar a juventude para ser competitiva em todo o mundo. A autopercepção e como planejar o futuro são parte da iniciativa tanto quanto aprender a programar.

O ensino de programação transforma vidas

Reprodução/FORBES
 Salam Al-Nukta

Salam diz que, ao longo dos anos, notou mudanças positivas nos jovens com quem tem trabalhado na Síria. Três estagiários do ChangeMakers receberam uma bolsa de estudos UWC, uma grande honra para jovens que buscam educação e bacharelado internacionais. Trata-se de um programa de dois anos que oferece um “passaporte” de entrada em instituições de ensino superior em todo o mundo.

“Também notamos mudanças nas personalidades, no caráter, nas aspirações e na forma como eles percebem a vida”, conta Salam. “O ChangeMakers não dá apenas aos jovens habilidades de programação, ele transforma vidas.”

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A empresária acrescenta que, desde o início da guerra, houve um aumento no número de pessoas que trabalham com programação. Além disso, ela viu um aumento nas atividades sociais voltadas para a comunidade e a inovação, como o TEDx e a Startup Weekend, que também acontecem na Síria.

“Infelizmente, o mundo se concentra na destruição, e não na evolução de nossos jovens”, diz Salam. “Três ex-alunos do ChangeMakers, algumas das mentes mais talentosas da Síria, receberam a bolsa da UWC, e há muitos outros. Mas nos falta o direito de sermos visíveis e de sermos ouvidos. Este é um direito muito importante que o mundo nos tirou porque quer se concentrar no lado negativo. Não digo que devemos ignorar que a crise acontece, mas não queremos desperdiçar oportunidades para as pessoas vivas.”

No momento, as circunstâncias inflexíveis na Síria prendem jovens sírios em meio à guerra. Segundo o relatório “Empreendedorismo em Zonas de Conflito”, as sanções impostas pelos EUA, União Europeia, Liga Árabe e ONU impedem que startups usem determinadas tecnologias. Ao mesmo tempo, sanções internas restringem a transferência de alguns bens e serviços. Todos os sistemas de pagamento eletrônico foram banidos no país, o que levou os empresários a abrir contas bancárias ou obter licenças de negócios em países vizinhos, o que é muito difícil.

“Os jovens enfrentam a repressão e não conseguem levar suas ideias além das fronteiras”, diz Salam. “Você tem um jovem sírio com uma ideia, mas encontra um concorrente, digamos, no Líbano, e essa pessoas têm mais oportunidades. As chances estão mais a favor dela.”

Um bom teste

Sana Hawasly, uma empreendedora síria de 25 anos, amiga próxima de Salam, diz que há vantagens em lançar uma startup na Síria.

Ela tinha acabado de chegar a Aleppo quando foi entrevistada. A cidade tem sido um dos principais campos de batalha da guerra. Mas isso não impede que Sana viaje para preparar a juventude síria para o mercado de trabalho tecnológico.

Além de ser uma das principais organizadoras da Wikilogia, uma comunidade colaborativa de estudantes de engenharia da computação em Damasco, Sana é cofundadora da Daraty, empresa que cria kits de ferramentas educacionais para ensinar às crianças o básico sobre eletrônica e solução de problemas. No ano passado, a Daraty foi nomeada pelo Fórum Econômico Mundial como uma das principais startups árabes que moldaram a quarta revolução industrial.

“Sim, temos explosões”, diz a empresária. “Sim, somos atingidos por foguetes. Mas acho que os sírios desenvolveram uma resiliência em todos os aspectos por causa disso. Pode haver uma explosão em Damasco, a capital da Síria, onde moro, mas ainda temos de trabalhar em nossos projetos e iniciativas. Se você parar, ficará para trás. Então, talvez seja isso que nos levou até onde estamos agora, além de ser o motivo pelo qual nunca paramos.”

Embora Sana diga que, enquanto os empresários sírios enfrentam desvantagens devido à crise, o país tem bons desenvolvedores, mão de obra barata, acesso a ferramentas e infraestrutura.

“Há cerca de 10 anos, a Síria conseguia fabricar tudo o que precisava sem precisar importar nada”, diz. “Hoje, as fábricas estão fechadas. Muitos intelectuais saíram e perdemos muitos recursos. Mas ainda existem alguns ativos dos quais podemos nos beneficiar. Por exemplo, é muito mais fácil e barato abrir uma linha de produção, testar produtos e criar lotes para testes antes de serem enviados para a China ou o Golfo. Temos restrições porque não temos sistemas de pagamento eletrônico, mas, ao mesmo tempo, estamos decididos a encontrar meios de fazer essas coisas.”

Trabalhar com alternativas e aproveitar ao máximo os recursos disponíveis é algo amplamente praticado na ICT Incubator, uma iniciativa criada pela Syrian Computer Society. Existem três incubadoras no país, uma em Damasco, uma em Homs e outra em Lattakia. Cada programa oferece um espaço de escritório e equipamentos gratuitamente.

A engenheira da computação Fadwa Murad supervisiona a incubadora em Damasco e gerencia o projeto para ajudar suas oito startups a crescer. Com 14 mulheres e 13 homens no grupo, é animador ver o equilíbrio entre os gêneros. E, independentemente se homem ou mulher, todos os empresários pretendem criar empresas para ajudar seu país.

Reprodução/FORBES
Fadwa Murad

“Muitos jovens se sentem deprimidos, por isso, os encorajamos a entrar no empreendedorismo, fornecendo o básico sobre como criar uma ideia que servirá à sua comunidade”, diz Fadwa. “A guerra impulsionou o empreendedorismo nessa geração porque ela começou a estabelecer seus próprios negócios para sobreviver. Nós sofremos uma explosão a cada dois dias. Escondemos-nos por alguns minutos e depois voltamos ao trabalho porque temos de sobreviver.”

Durante a luta pela sobrevivência, Fadwa se mantém otimista. “Para ser sincera, foi mais difícil em 2012”, afirma. “Não conseguíamos imaginar como sobreviver na guerra. Tantas pessoas ficaram em casa. Mas, agora, depois de sete anos, você não pode mais ficar em casa, é preciso trabalhar para continuar. Estou feliz que a maioria dos jovens que têm atividades em cidades como Damasco agora são capazes de fazer mais do que sobreviver.”

Se os EUA e outras nações quiserem realmente que a guerra síria termine, precisam ser feitas sanções e as políticas têm de ser justas. Naturalmente, a única maneira para isso ser possível é por meio da divulgação internacional, comunicação e colaboração. Com toda a tecnologia digital e conectividade que o mundo ocidental tem na ponta dos dedos, isso é possível. Sim, a paz pode ser alcançada.

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