2 motivos pelos quais o Facebook não é um bom negócio

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Segundo o CFO do Facebook, David Wehner, as taxas de crescimento de receita da rede social vão cair no terceiro e no quarto trimestres.

O Facebook está desacelerando. E, a menos que Mark Zuckerberg possa mudar este cenário, não é aconselhável manter as ações da empresa.

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Antes de chegar a este ponto, as ações do Facebook caíram 20% ontem (26). A queda de US$ 123 bilhões na capitalização de mercado teve uma causa simples – uma previsão de crescimento e lucro mais lentos do que o esperado.

Para ser justo, os usuários médios diários (DAUs) da rede social aumentaram 11% no segundo trimestre – mas seus 1,47 bilhão de DAUs foram 10 milhões a menos do que as estimativas dos analistas compilados pela Bloomberg. A base de usuários da rede social permaneceu inalterada em seu maior mercado, os EUA e o Canadá, em 185 milhões e caiu 1% na Europa (279 milhões), de acordo com o relatório trimestral. Quanto às receitas, apesar da arrecadação de US$ 31,2 bilhões – aumento de 42% no trimestre -, elas ainda ficaram US$ 130 milhões abaixo do que os analistas esperavam.

O portador das más notícias do Facebook foi o CFO David Wehner, que disse ainda que as taxas de crescimento de receita vão cair no terceiro e no quarto trimestres. De acordo com o “Wall Street Journal”, o executivo lançou outras três bombas durante a divulgação dos resultados.

A primeira é que o GDPR (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados) é ruim para o crescimento. Segundo ele, o crescimento da receita desacelerou mais na Europa devido às novas leis de privacidade – que os analistas não esperavam que prejudicassem o negócio. A segunda é que os anúncios de 24 horas estão arrecadando pouco. Novos formatos de publicidade – como os do Instagram Stories – estão se mostrando menos lucrativos do que os dos feeds de notícias. E, por último, a previsão de queda das margens operacionais. A expectativa é de uma redução de, aproximadamente, 44% nos próximos anos, devido aos investimentos em segurança e proteção.

Infelizmente para os acionistas, os principais executivos do Facebook não conseguiram fornecer respostas satisfatórias aos analistas que pediram “mais informações sobre como o futuro financeiro da empresa mudou drasticamente” segundo a Bloomberg.

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Como escrito em meu livro “Disciplined Growth Strategies” (“Disciplina das Estratégias de Crescimento”, em tradução livre), publicado em 2016, as empresas que buscam sustentar um crescimento rápido devem investir em novos vetores de expansão – como grupos de clientes, produtos ou novas geografias – com potencial de aumento mesmo quando os atuais ficam ultrapassados.

O Facebook fez isso bem pelo menos duas vezes durante sua existência. Quando abriu o capital, em maio de 2012, por exemplo, a empresa não tinha uma estratégia de publicidade para dispositivos móveis – o que foi uma má notícia para quem comprou as ações depois do IPO. Para consertar a situação, criou uma plataforma de publicidade móvel que agora domina a indústria e respondeu por 38,6% da receita total de anúncios digitais em 2017, de acordo com a eMarketer.

O Facebook também reconheceu desde cedo que um novo grupo de usuários preferia o Instagram, por isso comprou a empresa – o que também foi uma boa jogada. De fato, o rede social de fotos, comprada por US$ 1 bilhão em 2012, havia adquirido mais de 600 milhões de usuários até maio de 2017 – o que, segundo estimativas, equivale a US$ 60 bilhões.

Infelizmente, as outras aquisições da companhia não foram tão valiosas. O Facebook pagou, por exemplo, US$ 19 bilhões pelo WhatsApp em 2014 – que não cobra pelo serviço. Até maio de 2018, as mensagens do comunicador haviam triplicado – cerca de 1,5 bilhão de usuários enviavam 65 bilhões de mensagens pelo aplicativo e pela versão web por dia, de acordo com a “Business Insider”. O aumento de usuários poderia ajudar o Facebook a aumentar as receitas, mas em quanto? E quanto a mais o Facebook poderia extrair dos 1,5 bilhão de usuários médios mensais (MAUs) do WhatsApp?

Em 2014, a empresa de Mark Zuckerberg adquiriu a OculusVR por US$ 3 bilhões. Porém, o retorno do investimento é pequeno. No terceiro trimestre de 2017, por exemplo, o Facebook vendeu 210.000 fones de ouvido Rift por US$ 399 cada – o que gerou cerca de US$ 84 milhões em vendas no varejo.

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Parece-me que o Facebook cometeu o erro clássico das empresas de sucesso: não conseguiu identificar, investir e ganhar participação de mercado a partir de grandes novos vetores de crescimento, visto que as apostas antigas estão desacelerando e se tornando menos lucrativas.

Brian Wieser, analista da Pivotal Research que indicou que as ações do Facebook fossem vendidas antes da divulgação dos resultados, escreveu: “O setor de publicidade – e nada menos do que a digital – tem limites de alcance. Enquanto a empresa ainda expande em ritmo acelerado, os dias de crescimento acima dos 30% estão contados”.

E, ao que tudo indica, pode demorar anos até que o Facebook retome seu ritmo de crescimento – se é que isso vai acontecer. E são dois os motivos principais para que eu pense desse modo.

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A rede social foi bombardeada por críticas públicas sobre suas políticas de conteúdo.

1. Facebook tem alto índice de conteúdo tóxico

O Facebook não informa quanto de sua receita vem de lixo tóxico – anunciantes que gastam para alcançar usuários que compartilham informações errôneas, por exemplo, incitação ao ódio e outros pacotes de palavras, imagens e vídeos do pior que a humanidade tem para oferecer.

É provável que a receita proveniente deste tipo de conteúdo não seja trivial. Afinal, como Bloomberg escreveu, a empresa foi bombardeada por críticas públicas sobre suas políticas de conteúdo, especialmente em países como Mianmar e Sri Lanka, onde a desinformação levou à violência. E continuou sofrendo com as investigações sobre a manipulação russa da plataforma durante as eleições presidenciais dos EUA em 2016.

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Como não há informação sobre a porcentagem da receita que seria perdida com a eliminação do lixo tóxico, é difícil saber o que mais precisaria ser identificado para continuar crescendo a 30% ou mais anualmente. Na melhor das hipóteses, pode levar anos para resolver esse problema.

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Junto a alguns “insiders”, Marck Zuckerberg controla quase 70% das ações votantes do Facebook.

2. Zuckerberg está acima de todos

O desempenho público de Mark Zuckerberg no ano passado não inspira confiança. A julgar por seu depoimento no congresso norte-americano durante as investigações sobre a manipulação russa do Facebook nas eleições de 2016, ele não parecia estar no comando da origem do problema e de como resolvê-lo.

Na verdade, pareceu-me que ele achava que receberia muita publicidade gratuita, que as pessoas esqueceriam a controvérsia no próximo ciclo de notícias e continuariam usando o Facebook – assim como ele também não desistiria da receita proveniente desse tipo de conteúdo prejudicial.

O CEO do Facebook e alguns “insiders” controlam quase 70% das ações votantes da empresa, o que significa que ele não será descartado pelos demais acionistas. Mas qual Zuckerberg está indo ao trabalho nos dias de hoje? Aquele que liderou a criação de sua plataforma de publicidade móvel ou o que fez as grandes aquisições que não compensaram?

Levará anos até chegar a essa resposta, a menos que ele decida que tem coisas melhores a fazer com sua vida, escolha ser substituído como CEO e contrate alguém para resgatar o Facebook – da mesma forma que Satya Nadella fez com Steve Ballmer e Bill Gates na Microsoft.

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Porém, há também uma outra maneira de ver a atual situação do Facebook: talvez a queda de 20% em suas ações seja uma oportunidade de compra. Como Gene Munster, analista da Loup Ventures, escreveu, a orientação de receita “sem precedentes” de Wehner poderia servir apenas para tornar mais fácil superar as expectativas no futuro.

Segundo a Bloomberg, Munster escreveu disse que “a empresa tem um histórico de redefinir o crescimento da receita e as expectativas de despesas apenas para superar essas expectativas no trimestre seguinte”. Mas se Wehner estivesse tentando baixar o nível, ele não teria feito observações vagas e de longo prazo sobre crescimento mais lento e lucros menores.

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