Roberto Medina fala da expansão do Rock in Rio

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Roberto Medina, “pai” do Rock in Rio

Uma notícia no início de maio mexeu com o mercado de entretenimento no Brasil. A Live Nation, maior operadora de shows ao vivo do planeta, comprou uma fatia de 50% do Rock in Rio, o maior festival do país. Os valores e os detalhes da negociação estão guardados a sete chaves, mas podemos usar como referência uma transação semelhante, feita em 2014. À época, o Rock in Rio vendeu metade do negócio para a norte-americana SFX Entertainment por R$ 150 milhões. Um ano depois, a empresa abriu processo de falência e a compra foi desfeita (a SFX passou por um processo de rebranding e hoje se chama LiveStyle). Mas a breve parceria rendeu frutos e fez com que o Rock in Rio chegasse pela primeira vez aos Estados Unidos, quando teve quatro noites em Las Vegas em 2015 com nomes como Bruno Mars, Metallica e Taylor Swift entre seus headliners.

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Agora, com a Live Nation, a ideia é continuar esse processo de expansão territorial e temática, com eventos não necessariamente ligados a música. Roberto Medina, fundador e presidente do RiR, já tem planos: “Tomaram a decisão de investir na América Latina e teve essa coincidência de o Rock in Rio precisar de um novo parceiro. O festival vendeu quase 1 milhão de ingressos no ano passado, e eles têm uma empresa de venda de ingressos, a Ticketmaster, que não sabemos ainda se vem para cá também. O Rock in Rio ia para a Argentina, mas tivemos que parar o processo por causa da crise lá. Vamos retomar. Ou seja, acho que a gente tem uma oportunidade enorme nas mãos”, diz Medina, 69 anos. Mesmo ainda sendo “a cara” do festival, Medina divide internamente, desde 2011, sua função com o CEO Luis Justo, que trocou a vida no mercado financeiro pelos espetáculos musicais.

Os mercados brasileiro e norte-americano têm diferenças fundamentais, muito ligadas à cultura de cada país. Como a Live Nation domina o mercado de lá e Medina tem grande vivência no mercado daqui, a parceria tem tudo para dar bons frutos a curto e médio prazo. “Na medida em que eles vão viver a cultura de comunicação do Brasil mais de perto, vão poder levá-la para os EUA. Lá, o número de patrocínios para música é muito, mas muito menor do que para o esporte, por exemplo. É um absurdo. Então aí já existe um espaço pra crescerem”, comenta Medina, que salienta também o que pode ganhar com o novo aliado: “Estou pensando num evento para ser feito nos anos em que não houver RiR chamado Zaytrons, que eu ainda não sei se é para o Rio ou para São Paulo. Estou estudando isso com eles. Para o festival em si não muda nada, só acrescenta. Vamos aprender lá e eles vão levar nossa experiência para fora”, conclui.

"Medina e sua equipe criaram o Rock in Rio para se tornar um evento verdadeiramente global" - Michael Rapino, CEO da Live Nation

O pulo do gato de Medina na criação do Rock in Rio foi o fato de ter pensado grande logo no começo. Em 1984, a ideia não era criar um festival, e sim uma plataforma de comunicação. Isso fez com que o evento não dependesse apenas da venda de ingressos, mas também se aproximasse de marcas que queriam contato direto com seu público-alvo e, além disso, pudesse oferecer experiência. A primeira Cidade do Rock tinha 250 mil metros quadrados, o maior palco do mundo até então (5 mil metros quadrados) e dois shoppings com 50 lojas.

Ou seja, o marketing dominava como ferramenta para atrair público e conseguir resultados. O mesmo aconteceu na origem da Live Nation, que nasceu de uma fusão entre um organizador de eventos e uma das maiores empresas de venda de ingressos dos EUA, a Ticketmaster. Nesse momento, deixaram de enxergar os shows como estrela principal do negócio para voltar suas atenções para a venda de ingressos e agenciamento de artistas – hoje, nomes como U2, Madonna e Shakira têm seus shows vendidos com exclusividade pela Live Nation.

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Essa união de interesses nem sempre foi vista com bons olhos por alguns artistas, que tacharam a atitude como monopolizadora. Ainda nos anos 1990, bem antes da fusão, a Ticketmaster já sofria essa acusação – e uma das grandes bandas da época, o Pearl Jam, rompeu com a empresa e se negava a fazer shows em arenas que tinham a Ticketmaster como vendedora de ingressos. A disputa foi parar na Justiça – a banda saiu perdedora do processo que acusava a empresa de formar um truste no ramo de entretenimento. Em 2009, um ano antes da fusão (que já ocorria em outros países, mas ainda não havia sido julgada pelo Departamento de Justiça norte-americano), Bruce Springsteen foi outro artista que não viu a união de interesses com bons olhos e fez duras críticas à fusão numa entrevista para a revista Rolling Stone: “A única coisa que tornaria a atual situação dos ingressos ainda pior para os fãs seria a Ticketmaster e a Live Nation criando um único sistema, retornando-nos para uma situação de quase monopólio nas bilheterias”. Em 2010, essa fusão foi autorizada, com ressalvas.

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O épico show do Queen no Rock in Rio 1985

Há cerca de cinco anos começava o namoro entre a Live Nation e o Rock in Rio, mesmo antes de a empresa norte-americana entrar no mercado brasileiro – sua operação nacional começou em setembro de 2017. Inicialmente em parcerias com outras produtoras por falta de infraestrutura própria no país, fez seu primeiro show “solo” em outubro, com um recorde: quatro noites de U2 no estádio do Morumbi, em São Paulo. A empresa diz pretender aumentar seu alcance em médio prazo não apenas com festivais e shows de artistas estrangeiros, mas também no gerenciamento de turnês de artistas solo locais. Seu primeiro contratado no país foi Lulu Santos.

“O Rock in Rio é um evento que estabeleceu o padrão para festivais na América do Sul”, disse Michael Rapino, presidente e CEO da Live Nation em um comunicado. “Medina e sua equipe criaram o Rock in Rio para se tornar um evento verdadeiramente global. Estamos ansiosos para integrar sua experiência no setor nos negócios”, declarou. Medina garante que, a princípio, mantém sua rotina de presidente do RiR: “Não muda nada. Não trouxeram nenhum diretor. A gente já dá um resultado expressivo”, diz.

O mercado do entretenimento no Brasil vive um momento de fusões e crescimento, com grandes festivais já consolidados e ainda os médios e pequenos que proliferam em todas as regiões do país.

Medina fala com orgulho da história de seu festival, que ultrapassou os 30 anos de vida e ainda tem potencial para crescer. “A gente foi quebrando paradigmas um atrás do outro. Não existia iluminação de plateia, por exemplo, ninguém queria. O palco era o foco. Mas eu dizia que o foco podia ser uma plateia de 200 mil pessoas cantando. Produzi aqui sem informar os artistas e funcionou. Acabou virando algo comum no mundo todo.”

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Sem parceria, com parceria da SFX ou com parceria da Live Nation, o que importa para Medina é que ele continua se divertindo e se empolgando com o Rock in Rio: “Eu já tenho cabelo branco há muito tempo, mas gosto do que faço. Trabalho muito. É uma coisa incerta, são muitos fatores aleatórios nos perseguindo. Paulo Coelho tem uma frase que diz: ‘Quando você está em busca da sua lenda pessoal, o Universo conspira para te ajudar a realizar’. E o mundo conspirou, porque eu não seria capaz de fazer tudo isso. Rolou um ‘ajuda esse cara aí!’”.

Rock in Rio Lisboa tem nova edição em junho

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Rock in Rio Lisboa 2016

Desde 2004, o Rock in Rio frequenta as terras lusitanas e realiza seu festival já de forma completamente consolidada. A parceria com a Live Nation ainda não será atuante no evento por ser muito recente – concretizou-se quando o Rock in Rio Lisboa já tinha uma de suas quatro noites esgotada. “Lá é mais estruturado e organizado que no Brasil. O projeto já anda sozinho, a minha colaboração pessoal é muito menor. A filosofia de trabalho já está lá, e metade da equipe do Brasil veio de Portugal. Interessante, isso”, nota o empresário, que salienta as diferenças culturais entre brasileiros e portugueses: “Eles são bem diferentes, muito diretos, é tudo branco ou preto, não tem meio-termo. Mas a vida tem meio-termo. O John Lennon já dizia que ‘A vida é aquilo que acontece entre dois momentos que você planeja’. O português é mais cartesiano, mas são ótimos profissionais, obedecem prazos… O Rock in Rio é como uma multinacional: a gente exporta e importa muita coisa. E Lisboa não precisa mais do pai”.

Os shows em Portugal estão marcados para os dias 23, 24, 29 e 30 de junho.

Reportagem publicada na edição 59, lançada em maio de 2018

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