Bilionário doa milhões às universidades dos EUA e do Reino Unido

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Blavatnik desistiu de sua cidadania soviética e agora é um cidadão norte-americano e inglês

Len Blavatnik, empresário bilionário nascido na Ucrânia e criado na Rússia, com um patrimônio líquido estimado em US$ 17,9 bilhões, afirma já ter doado US$ 500 milhões para caridade, principalmente, para universidades de renome mundial como Oxford, Harvard, Stanford e Yale. Quando questionado acerca da preferência pela doação a instituições de ensino superior, Blavatnik explica que, para ele, a filantropia é como administrar um negócio.

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“Penso no maior valor, ou nos maiores resultados para cada dólar investido”, diz ele, em inglês rápido e acentuado. “Esse investimento é maior, por assim dizer, se eu me concentro nas poucas instituições acadêmicas. Eles já selecionaram as melhores pessoas, então, o impacto do meu dinheiro provavelmente se multiplicará. ”

O meio bilhão de dólares que Blavatnik já doou inclui US$ 100 milhões em 2013 para a Universidade de Oxford, para o lançamento da Blavatnik School of Government, um programa de pós-graduação voltado para políticas públicas. Ele também prometeu US$ 50 milhões para a Universidade de Harvard no mesmo ano, para o Blavatnik Biomedical Accelerator, um programa para aprofundar a pesquisa científica em terapias práticas e curas de doenças. Só em 2018, sua Fundação Família Blavatnik doou US$ 10 milhões para a Universidade de Columbia e US$ 2 milhões para a Universidade da Pensilvânia, além de prometer US$ 10 milhões para Stanford.

No início de setembro, Blavatnik organizou um evento de gala no Museu Americano de História Natural, em Manhattan, com a Academia de Ciências de Nova York, para comemorar os vencedores deste ano do Prêmio Blavatnik para jovens cientistas. Fundada em 2007, a premiação anual reconhece jovens cientistas de pós-doutorado e professores nos EUA com menos de 42 anos que estão no início de suas carreiras, mas que demonstraram potencial para descobertas notáveis. Atualmente, cada um recebe US$ 250 mil em espécie.

Blavatnik desistiu de sua cidadania soviética e agora é um cidadão norte-americano e inglês, mas seus supostos laços com o Kremlin deixaram alguns abalos, especialmente, àqueles que recebiam sua filantropia. Em novembro de 2015, o jornal britânico “The Guardian” recebeu uma carta ao editor, assinada por professores e dissidentes soviéticos, criticando Oxford por ter o nome de Blavatnik em sua escola. Sua principal indignação era o fato de o bilionário supostamente ter ajudado um ataque patrocinado por Vladimir Putin contra os funcionários da empresa de energia British Petroleum (BP) que trabalhavam na Rússia. Oxford defendeu sua decisão e seu benfeitor, enquanto os advogados de Blavatnik negaram que ele tivesse algum papel na trama.

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Independentemente disso, permanece a possibilidade de que Blavatnik possa usar a filantropia para construir uma boa “aparência” com algumas das instituições acadêmicas mais respeitadas do mundo, em um momento em que seus ex-parceiros de negócios enfrentam sanções dos EUA. O grupo inclui Viktor Vekselberg (patrimônio líquido: US$ 13,1 bilhões) e Oleg Deripaska (patrimônio líquido: US$ 3,3 bilhões), como dois dos sete oligarcas russos que o Departamento do Tesouro dos EUA identificou nas sanções de abril. As alegações feitas contra a dupla incluem interferência nas eleições presidenciais de 2016 e lucros financeiros de um governo russo que se envolve em “atividades desestabilizadoras”.

Perguntado se essas grandes quantias em doações para universidades norte-americanas e britânicas são táticas para se distanciar da Rússia, um porta-voz da Fundação Blavatnik Family respondeu, por e-mail: “A fundação se concentra em promover pesquisas científicas transformadoras, apoiando instituições com um histórico significativo de estudos e avanços em ciência, negócios e governo, independentemente da localização geográfica. Além disso, o Sr. Blavatnik é cidadão dos EUA e do Reino Unido e graduado pelo sistema universitário norte-americano.”

Um homem dos 3 mundos.

Blavatnik nasceu em Odessa, na Ucrânia, em 1957. “Meus pais eram universitários, e eu vivi a ciência toda a minha vida”, diz. “Isso me permitiu uma criação progressista.”

Ele se mudou com sua família, ainda quando jovem, para Yarsoslavl, na Rússia, a cerca de 3,5 horas da capital. Depois de se formar na Universidade Estadual de Moscou, Blavatnik se mudou para os EUA, em 1978, quando tinha 21 anos, para estudar ciência da computação, na Universidade de Columbia. Ele se tornou um cidadão norte-americano em 1984. Dois anos depois, em 1986, fundou sua empresa de investimentos, Access Industries, e obteve um MBA em Harvard, em 1989.

Com um passaporte norte-americano e conexões russas, Blavatnik estava bem posicionado para investir em empresas estatais que se converteram em propriedade privada no início dos anos 90, quando a União Soviética foi destruída. Ele e Vekselberg, um ex-colega de classe, formaram a filial russa da Renova, Access para adquirir participações em empresas de alumínio e de carvão.

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Por meio de uma série de investimentos impulsionados pelas parcerias com vários oligarcas russos, incluindo Vekselberg e Mikhail Fridman (patrimônio líquido de US$ 13,1 bilhões), Blavatnik obteve seus primeiros milhões durante os caóticos dias pós-soviéticos. Uma aquisição foi a petrolífera TNK, antes de sua fusão com o conglomerado de petróleo e gás britânico BP, em 2003. Naquela época, a TNK-BP era a terceira maior companhia petrolífera da Rússia. Uma década depois, a estatal russa Rosneft comprou a TNK-BP por US$ 55 bilhões. FORBES estima que Blavatnik embolsou US$ 7 bilhões com a venda.

Apesar de ter iniciado sua fortuna na Rússia, há muito tempo Blavatnik se distancia de seu país de origem, investindo em empresas e comprando companhias que se localizam no Ocidente. Em 2005, dois anos após a fundação da TNK-BP, a Access comprou a Basell, fabricante de plásticos com sede na Holanda, em uma aquisição de US$ 5 bilhões. Ele projetou a criação da LyondellBasell dois anos depois, após adquirir a empresa de produtos químicos Houston, em uma compra avaliada em US$ 20 bilhões. Este é agora seu maior patrimônio: sua participação de 18% na empresa de US$ 40,5 bilhões (valor de mercado) vale mais de US$ 7 bilhões.

Blavatnik também é dono do Warner Music Group, conglomerado de gravadoras americanas que comprou por US$ 3,3 bilhões, em 2011. Ele tem outros US$ 2 bilhões na Access Technology Ventures, um fundo com portfólio que inclui Alibaba, Facebook, Snapchat, Spotify e Yelp.

“Blavatnik é interessante porque pertence a três mundos: Rússia, Nova York e Londres”, diz Anders Aslund, economista e analista russa para assuntos internacionais, no Think Tank Atlantic Council. “Ele é cidadão dos EUA, tem uma escola em Oxford, o que é uma coisa excelente. Mas ao mesmo tempo é um grande oligarca russo.”

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Blavatnik ainda mantém alguns ativos na Rússia. Ele e Vekselberg, ao lado de Deripaska, são os principais investidores na Rusal, uma das maiores produtoras de alumínio do mundo. Desde que Vekselberg e Deripaska foram sancionados em abril, as ações da empresa, como resultado, caíram perto de 60%.

Ainda assim, as coisas estão ótimas para o bilionário, que foi elogiado pela rainha da Inglaterra, em junho de 2017, por seu trabalho filantrópico no Reino Unido. Blavatnik fala casualmente sobre eventos de importância monumental (“A cerimônia do Prêmio Nobel, em Oslo, se você puder ir, eu recomendo. É muito boa”). E, no início deste ano, em fevereiro, teria comprado a casa mais cara da cidade de Nova York, no Upper East Side, por um valor recorde de US$ 90 milhões. O imóvel é anexo à casa que ele comprou em 2007 por US$ 51 milhões.

Em uma época de relações frias e acusações de suposta interferência eleitoral entre EUA e Rússia, Blavatnik, que disse ao “The Guardian” que não se comunicava com Putin desde 2000, é uma peculiaridade. Tendo construído sua fortuna durante o colapso econômico da União Soviética, ele passou a maior parte deste milênio tirando seus ativos da Rússia, enquanto esculpia seu nome nas maiores e mais brilhantes instituições do mundo ocidental. Quando perguntado se iria considerar a expansão do Prêmio Blavatnik de Jovens Cientistas para a Rússia (que se expandiu para o Reino Unido e Israel no ano passado), Blavatnik contestou: “Eu adoraria, mas não tenho planos”. “Mas você sabe, os melhores cientistas russos, na verdade, muitos deles, trabalham na América, então, é uma maneira de beneficiá-los também.”

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