Venezuelanos e argentinos adotam bitcoin contra crise

Foto Reprodução Forbes
A situação na Argentina e na Venezuela demonstra o potencial da moeda virtual como reserva estável de valor

A situação na Venezuela se deteriora à medida que cresce o êxodo de habitantes. Estima-se que mais de 2,3 milhões de pessoas já deixaram o país, com população total de apenas 31 milhões, e esse número ainda deve aumentar. O governo autoritário do venezuelano Nicolas Maduro só faz endurecer enquanto o país atinge um nível de crise que rivaliza com o da Síria, de onde muitos fogem rumo à Europa.

SAIBA MAIS: Concessionária do Texas aceitará bitcoin para Rolls-Royce

Impulsionado pela hiperinflação — que em agosto ultrapassou 2.000.000% (isso mesmo: 2 milhões por cento) –, o bolívar da Venezuela tornou-se inútil. Para piorar, controles paralelos de câmbio impostos pelo governo restringiram o acesso dos cidadãos a moedas estrangeiras, que seriam uma base estável de valor. O que se revelou recentemente é que esse cenário devastador é também, por outro lado, um mercado emergente para a bitcoin e outras criptomoedas. É um caso que permite estudar o potencial de impacto positivo da moeda virtual para as pessoas.

Com a depreciação do bolívar em um ritmo sem precedentes, a bitcoin representa uma opção mais segura para uma poupança, apesar de ter caído quase 70% em relação a seu recorde histórico. Isso se deve à magnitude da hiperinflação venezuelana. A moeda virtual tem uma oferta total fixa de 21 milhões, e usa um modelo deflacionário através de um sistema de recompensas mantido por algoritmos.

Os venezuelanos começaram a recorrer às criptomoedas por outros motivos também.

“Fizemos várias parcerias com consumidores venezuelanos para socorrê-los em meio à crise”, diz Galiano Tiramani, CEO da Tirex Trading, empresa estabelecida nos EUA. “Ultimamente, temos visto um aumento significativo do interesse daqueles que usam bitcoin não apenas para armazenar valor, mas como um meio de transferi-lo para fora do país.”

Enquanto os venezuelanos tiverem conexão com internet, poderão enviar bitcoins livremente pela rede, fora do controle opressivo de Maduro. A troca de bolívares por dólares americanos é quase impossível. Apenas uma fração dos venezuelanos é capaz de negociar mais que algumas centenas de dólares em bolívares por ano. Além disso, o bolívar é atualmente a moeda mundial com pior desempenho em relação ao dólar, problema agravado pela retenção de dólares do governo dos importadores, que causou certa escassez de commodities básicas.

As métricas fornecidas pela empresa especializada CoinDance dão uma boa ideia das taxas de crescimento e popularidade da bitcoin em mercados ponto a ponto (P2P). Ao contrário das bolsas que cobram taxas baixas ou mesmo nenhuma taxa, os dados da CoinDance da “P2P exchange LocalBitcoins” indicam volumes legitimamente altos devido às taxas graúdas e à falta de negociação, por exemplo. Segundo a CoinDance, os volumes semanais da LocalBitcoins em bolívares ficaram mais baixos desde o final de março deste ano.

LEIA TAMBÉM: 10 cidades que mais aceitam Bitcoin no mundo

“Contornar a regulamentação imposta pelo governo é uma das vantagens da bitcoin. Esta é uma tecnologia resistente à censura, projetada especificamente para sobreviver a ataques de poderes centralizadores”, diz Galiano Tiramani. “É ótimo ajudar as pessoas, mas ao mesmo tempo é uma situação complicada. Embora as sanções dos EUA ainda não proíbam negociações com um cidadão venezuelano de classe média, nós trabalhamos com cautela porque as empresas norte-americanas estão proibidas de lidar com cidadãos venezuelanos.”

A crise da Argentina do liberal Mauricio Macri também tem levado o país a recorrer à bitcoin. O peso argentino é atualmente a segunda moeda com pior desempenho em relação ao dólar, atrás apenas do bolívar. De acordo com a CoinDance, a troca do peso por bitcoin explodiu nos últimos meses.

A situação na Argentina e na Venezuela demonstra o potencial da moeda virtual como reserva estável de valor, fora da influência dos governos, mesmo de regimes opressores. Não há limites estabelecidos quando se trata de para onde e quando enviar fundos, o que também contribui para o aumento rápido do volume de troca do bolívar e do peso pela bitcoin.

Outras criptomoedas e suas comunidades tomaram conhecimento da crise na Venezuela e ofereceram apoio. A Nano, uma rede de pagamento em bitcoins rápida e flexível, iniciou um centro de divulgação para os venezuelanos, e tem destacado o problema para seus usuários em seu blog.

Para quem ainda está na Venezuela, a situação é desesperadora, e a bitcoin oferece uma das poucas oportunidades de se recuperar valor em uma economia em colapso, ainda que as criptomoedas também flutuem e sejam bastante instáveis.

Copyright Forbes Brasil. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, impresso ou digital, sem prévia autorização, por escrito, da Forbes Brasil (copyright@forbes.com.br).