Ice Cube e Carolyn Rafaelian se unem por esporte na TV

Foto Reprodução Forbes
Depois de investir em um desses jogos, ela finalmente conheceu Ice Cube – ou Cube, como ela o chama – em pessoa, e os dois se deram bem.

Resumo da matéria:

  • A dupla se uniu na mega aquisição da 21st Century Fox, avaliada em US$ 71,3 bilhões;
  • Rafaelian, Macquarie e Centerbridge oferecerão US$ 1 bilhão, enquanto Big3 investirá um valor estimado entre US$ 350 milhões e US$ 500 milhões;
  • Além de exibir jogos locais da NBA, NHL e MLB, e da Big3, eles planejam criar um conteúdo que chame atenção dos jovens, como talk shows.

O’Shea Jackson Sr., mais conhecido como Ice Cube, é um artista de hip hop que ganhou fama há mais de 30 anos como membro fundador do grupo N.W.A. Mas quando ele e Carolyn Rafaelian se conheceram em Venice Beach, no ano passado, a bilionária que criou a joalheria Alex and Ani deu a ele um novo apelido.

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“Ele acorda, pega seu café e coloca três cubos de açúcar, talvez quatro. Então eu brinquei que ele não era um cubo de gelo, mas sim um cubo de açúcar”, conta ela, rindo. “Sem trocadilhos, ele é uma das pessoas mais doces e pé no chão que conheço. Na indústria e no meio ambiente, ele é inovador. Tivemos uma conexão instantânea.”

Os dois fazem um par improvável: ela, espiritual e alegre, da Nova Inglaterra, no nordeste dos EUA; ele, ator e rapper, de Los Angeles. Mas eles encontraram um ritmo, e a dupla estranha pode ser a responsável por amarrar algumas das pontas soltas na mega aquisição da 21st Century Fox pela Disney, por US$ 71,3 bilhões, oficializada em 20 de março.

Com o dinheiro do banco de investimentos Macquarie Group e da empresa de private equity Centerbridge Partners, a dupla planeja comprar 21 das redes esportivas regionais da Fox por US$ 10 bilhões. A oferta foi estruturada pela Big3, de Ice Cube, uma liga profissional de basquete “3 contra 3” composta principalmente por ex-jogadores da NBA, que já conta com investimentos de Carolyn. De acordo com as leis do Departamento de Justiça, a Disney, dona da ESPN, deve deixar de investir nessas redes 90 dias após o fim do acordo.

Carolyn, Macquarie Group e a Centerbridge oferecerão US$ 1 bilhão, enquanto a Big3 investirá um valor estimado entre US$ 350 milhões e US$ 500 milhões. A liga enfrenta supostamente a concorrência de outros bilionários, como John Malone, cuja Liberty Media fará parceria com o dono do Minnesota Twins, John Pohlad, e Tom Gores, bilionário de private equity. A Major League Baseball também está no processo de licitação.

As 21 redes dão direitos de transmissão de 15 dos 30 times da MLB, incluindo Arizona Diamondbacks, Detroit Tigers, Milwaukee Brewers e Miami Marlins. Inicialmente, a Disney propôs cerca de US$ 20 bilhões para um grupo de 22 redes, mas o número era um tanto quanto improvável. (A 22ª rede é o lucrativo YES Network, que vai ao ar nos jogos dos Yankees e Brooklyn Nets e deve ser vendido separadamente por cerca de US$ 3,5 bilhões.) Embora o fluxo de caixa das redes esportivas regionais tenha crescido nos últimos 19 anos, o investimento em televisão linear é arriscado na era do streaming e dos cord-cutters (cortadores de fios”, em tradução livre, termo usado para designar a combinação combinação de internet de banda larga e um ou mais serviços como IPTV, gravadores de vídeo digital e TV gratuita por terra ou ar).

Ainda assim, no papel, esse é um bom negócio para Carolyn e Ice Cube. “Se você comprar por US$ 10 bilhões, e as pessoas acharem que aquilo custou cerca de US$ 15 bilhões, você fez certo”, diz John Tinker, analista sênior de mídia da Gabelli & Company. “A Disney está entre a cruz e a espada: ela precisa vender as redes, não pode tirá-las do mercado.”

Mas por que um rapper e uma designer de joias – ambos com praticamente nenhuma experiência no negócio – estão envolvidos nisso?

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Tudo começou em 2018, quando Carolyn foi abordada por seu sócio e advogado, Mark Geragos. Ele conhecia o executivo de entretenimento Jeff Kwatinetz, um dos cofundadores da Big3, e um advogado com quem havia trabalhado em vários casos de direito civil, incluindo o processo de Colin Kaepernick contra a NFL. Geragos, já apoiador do Big3, achou que poderia ser uma boa oportunidade de investimento para Carolyn.

Fã de basquete de longa data – ela jogou, pela escola, no que era o projeto embrionário do Boston Celtics -, Carolyn já tinha, por meio da Alex and Ani, contratos lucrativos de licenciamento com a NBA, NFL e MLB. A Big3 tem total adequação à marca e à energia de Carolyn. Não demorou muito para que ela investisse uma quantia não revelada, fazendo da Alex and Ani a patrocinadora d a liga.

“As pessoas que conhecem a liga costumam ficar obcecadas”, diz ela. “Ainda estamos no nosso negócio, mas não houve nada além de sucesso até o momento. Agora, esses jogadores têm um lar, e as pessoas adoram assisti-los. Os jogos são muito divertidos e cheios de energia… É uma vibe totalmente diferente.”

Depois de investir em um desses jogos, ela finalmente conheceu Ice Cube – ou Cube, como ela o chama – em pessoa, e os dois se deram bem.

“Estávamos sentados bem na primeira fila e continuavam nos trazendo comida – carne e sanduíches. Não sei nem de onde vinha, só sei que começamos a distribuir tudo aquilo para as pessoas ao nosso redor”, lembra Carolyn, rindo e acrescentando que sua amizade e parceria com Cube só cresceu desde então.

Os dois até colaboraram para projetar os anéis dos campeonatos, feitos em ouro branco e cravejado de diamantes e rubis. “Eu gostaria de agradecer a Alex and Ani por insistir na alta qualidade durante o processo de design, criando algo tão legal e significativo para os jogadores”, diz Ice Cube sobre o processo.

Em junho de 2018, o Departamento de Justiça anunciou que, para o acordo Disney-Fox, a Disney teria que se desfazer das redes regionais de esportes da Fox dentro de 90 dias a partir do fechamento do negócio.

“Eu estava prestando atenção porque estava assistindo à legislação da AT&T”, lembra Geragos, sócio de Carolyn e investidor da Big3. “Eles disseram que queriam um desinvestimento das redes esportivas regionais, e aquilo provocou uma discussão.”

A Big3, na época, estava no final de um contrato de dois anos com a rede nacional Fox Sports, e em busca de outras opções de transmissão. As redes esportivas regionais proporcionariam uma maneira de transmitir os jogos, assim como uma forma de expandir a marca.

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“Acredito que não existem coincidências: tudo é coordenado estrategicamente”, diz a empresária, que foi abordada por Geragos, Kwatinetz, Ice Cube e outros executivos da Big3 logo após a ideia da licitação. “Não é uma coincidência, é algo que precisamos aproveitar e escolher. A oportunidade era uma em um milhão… Ou devo dizer em um bilhão?”, pergunta.

E este é exatamente seu comprometimento com o negócio: US$ 1 bilhão, por meio de um mix de dinheiro e dívida. Ela está disposta a alavancar uma quantia absurda, quase todo o seu patrimônio líquido, em uma estratégia para uma rede que ainda parece vaga.

Ao descrever o que ela e Ice Cube querem fazer, muitas ideias estão em jogo. Além de exibir jogos locais da NBA, NHL e MLB, bem como as partidas da Big3, a dupla planeja criar conteúdo que “coloque mais sinergia” e atraia um público diversificado e jovem, com talk shows, séries focadas em esportes, cultura e política e um prêmio. Em geral, a ideia é direcionar essas redes para um destino que vai além de esportes locais e atrair grandes anunciantes.

Normalmente, as redes esportivas regionais se concentram exclusivamente em jogos – exibindo as disputas locais de beisebol, basquete ou hóquei e enchendo o tempo extra com reprises de partidas antigas, entrevistas com técnicos e comentaristas. É um risco se aventurar por uma estrada tão distante do modelo tradicional de uma rede esportiva regional, mas pode ser que funcione.

“Esses caras têm uma estratégia forte. Eles precisam crescer de uma maneira não tradicional. Se eles acertarem será um sucesso, mas é, definitivamente, mais arriscado”, opina a analista John Tinker, acrescentando que o plano significa que as redes não estariam em competição direta com a ESPN, da Disney – um movimento que poderia tornar a Big3 mais atraente do que seus concorrentes durante a processo de licitação.

Carolyn acredita que a dupla crescerá neste mercado. “Eu não estaria fazendo isso se não achasse essa uma decisão inteligente”, afirma, afirmou ela, que se recusou a encarar o cord-cutting ou sua falta de experiência em mídia como obstáculos. “Os negócios de 10 anos atrás não são nada parecidos com os de hoje. Teremos diferentes caminhos e relevância.”

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Os jogos em si fornecem uma certa segurança, já que eventos esportivos ao vivo atraem o público da televisão. “A única coisa que não se pode cortar dos fãs é a rede que transmite as equipes locais”, diz Tinker.

“As pessoas perguntam como essa dupla inusitada acabou se juntando. Mas por que não? É assim que as melhores coisas acontecem”, diz Carolyn. “O mais legal é quando um grupo de pessoas de diferentes vidas tem algo para acrescentar – um coração aberto, uma mente aberta, um fundo interessante – e se reúne para criar algo novo e excitante.”

Ela também acredita em Ice Cube. A experiência dele com música, televisão, cinema e, agora, entretenimento ao vivo com a Big3, permite que o rapper tenha uma compreensão geral sobre o processo criativo e inovações, diz ela.

Não importa o que aconteça, Carolyn se mantém otimista “Quando você está passando os canais de TV, esse será o que chamará sua atenção.”

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