“O boom das artes é global”, diz Fernanda Feitosa

Fernanda Feitosa, diretora e fundadora da SP Arte (Foto: Ênio Cesar)

Já faz uma década e meia que o circuito brasileiro de artes entra em ebulição todo começo de abril. E tudo isso por causa da SP Arte – Festival Internacional de Arte, evento criado e comandado anualmente por Fernanda Feitosa que, com o tempo, amadureceu e passou a atrair as principais galerias internacionais. A iniciativa fincou raízes em São Paulo e ganhou projeção mundial. Em 2016, foi classificada como umas das 40 “top” feiras do mundo, sendo a única do Hemisfério Sul, segundo um estudo realizado pelo “Art Newspaper” a pedido da Momart, empresa britânica especializada no transporte de obras de arte. Só na última edição, gerou R$ 230 milhões em negócios – R$ 125 milhões graças às galerias paulistas -, e recebeu, durante os quatro dias, 34 mil visitantes.

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Às vésperas da edição 2019, que será realizada entre os dias 3 (pré-abertura para convidados) e 7 de abril com a participação de 165 galerias que representam mais de 2 mil artistas, Fernanda Feitosa conversou com a Forbes sobre arte brasileira, o atual momento da iniciativa e o que está por vir.

Confira, a seguir, a entrevista na íntegra:

Forbes: Você imaginou que a SP Arte alcançaria a proporção que tem hoje?

Fernanda Feitosa: Não. Claro que sempre que começamos um novo projeto, esperamos que tudo dê certo. Mas eu não imaginava que chegaria a esse tamanho, não só no Brasil, mas também no exterior. A feira é super comentada, elogiada, e já faz sete anos que recebemos galerias internacionais super relevantes no contexto mundial que expuseram uma vez e continuaram participante – o que é super importante. Essa capacidade de retenção mostra também a relevância da SP Arte. Outro fato que merece ser destacado é a isenção do ICMS a partir de 2012, o que criou, de fato, oportunidades para que as galerias de arte internacionais viessem para o país vender para os brasileiros.

F: Você pode adiantar alguma coisa da edição 2019?

FF: Todo ano, o evento vai evoluindo e novas propostas surgem. O destaque deste ano é o setor de esculturas, com curadoria do Caue Alves, curador do MuBE, do lado de fora do pavilhão e aberto ao público. Uma outra novidade, que não é tão nova assim já que existe há cinco anos, é o setor de performances. Porém, neste ano, os participantes são artistas profissionais já representados por galerias de arte. E nós vamos estimular a comercialização das performances – a SP Arte vai, inclusive, fazer uma doação para a Pinacoteca de uma das performances, no valor de R$ 20 mil. O setor de design também cresceu em 2019 e tem uma área dedicada a arquitetos convidados, entre eles Jaime Lerner, Paulo Mendes da Rocha e Lia Siqueira. O setor curado, batizado de Solo, foi idealizado pela chilena Alexia Atala, e propõe a aproximação da América Latina e do Brasil, propondo, por meio dos artistas selecionados, novas leituras a respeito da identidade latino-americana.

F: Como a arte brasileira está posicionada no cenário global?

FF: O mercado de arte nacional é bem jovem quando comparado aos padrões europeus de longevidade. Ele data dos anos 1950, assim como os museus de arte moderna e a bienal. Muitas galerias contemporâneas têm menos de 20 anos – é um mercado novo e estamos apenas no começo da reunião de informações para conseguir avaliar o crescimento. Outro ponto, totalmente diferente, é a qualidade e o posicionamento dos nossos artistas em um cenário global. Por meio da atuação constante e dos esforços das galerias de arte nacionais, que participam ativamente das feiras lá fora, nós temos conseguido posicionar artistas brasileiros nas melhores coleções, tanto institucionais quanto privadas. E esse é um ganho muito grande para a arte brasileira. O que ainda falta, infelizmente, é uma política pública de estímulos às artes visuais. Bastaria já estar incluída na nossa constituição aspectos como o direito e o estímulo à fruição da cultura, assim como o acesso dos museus às verbas públicas. Mas não há muita preocupação como isso é tratado. Não temos também ajuda nas fronteiras para trazer bens culturais. Nós temos algumas ações isoladas na Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), como um programa de incentivo à exportação. Isso se dá em formato de subsídio de participações de feiras no exterior e encontros de galerias. A agência também tem um programa que traz formadores de opinião ao Brasil, para visitar centros culturais, estudar artistas. Nesta edição da SP Arte serão 15 convidados. É uma ação muito importante, mas é isolada.

F: Como funciona a dinâmica de visitação e de vendas na SP Arte?

FF: O evento no Brasil não é diferente de outros eventos do circuito global, onde a maior parte dos visitantes são locais mesmo. Aqui, a maior parte é formada por brasileiros. Nós temos um mercado de arte muito robusto, um circuito de longa data de colecionadores que é bem comprometido com a causa e com os artistas. É um setor que apoia o mercado local. Cerca de 5% apenas são de visitantes internacionais. Dos 95% nacionais, 75% são de São Paulo e o restante está distribuído entre visitantes de outros estados do país.

A abertura é sempre um momento muito importante, porque é aí que é determinado o passo da edição, para onde ela vai caminhar. E muitas obras são negociadas logo no primeiro dia. Eu costumo dizer que a SP Arte não dura só cinco dias, mas sim os 365 dias do ano, já que temos uma plataforma conectada com as galerias ininterruptamente. Há esses eventos pontuais, de período curto, onde as pessoas compram por impulso, mas há muitos desdobramentos depois, com processos de compra longos e prolongados. É um processo contínuo. A SP Arte talvez seja o primeiro evento, aquele que abre a “temporada” do mercado de arte no país, que acontece logo em abril.

F: Como você imagina a SP Arte em um futuro próximo?

FF: Nós estamos sempre pensando em projetos futuros. Em 2014, levamos a SP Arte para fora do estado, fizemos uma edição em Brasília, e temos vontade de repetir isso. Nós temos muita vontade de levar a feira para o Nordeste. Levar galerias do sudeste para o nordeste, e estimular a presença e o colecionismo na região – o que também estimula a presença de galerias, uma sobrevivência maior fora do eixo sudeste. Nós acabamos de alterar o site da SP Arte e estamos dando um contorno de maior aproximação entre as galerias e o público todo, não apenas de forma comercial.

F: Qual é a sua impressão sobre esse “boom” das artes?

FF: O boom é global. Estamos vendo cada vez mais as gerações jovens se interessando por arte e cultura, e isso é muito positivo porque precisamos renovar as gerações de colecionismo e mecenato. São jovens que não só estão comprando, mas também estão se aproximando dos museus. Nós temos vários museus hoje em dia que possuem jovens patronos, como o MASP e a Pinacoteca. São pessoas jovens que estão buscando uma forma de lazer intelectual e acho que isso tem muito a ver com o próprio crescimento do Brasil… Na medida que o país cresce, a economia melhora, os hábitos culturais também vão se refinando. Eu acho que as redes sociais, o Instagram, principalmente, aumenta, a percepção, funcionam como vitrines. Eu tenho impressão que as pessoas mais jovens querem participar mais da vida cotidiana do país, estão mais engajadas.

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