Como Mara Lecocq mapeou líderes femininas na publicidade nos EUA

ReproduçãoForbes
“Foi o melhor sentimento do mundo, saber que decisões de carreira das mulheres estavam sendo fortemente impactadas pela minha lista”

Resumo:

  • A publicitária Mara Lecocq percebeu que não tinha nenhuma inspiração feminina em sua área de trabalho e que isso era algo importante; 
  • Seu projeto para mapear as lideranças femininas no seu segmento começou como um documento compartilhado do Google; 
  • Veja as dicas de inspiração de Mara na entrevista abaixo.

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Mara Lecocq estava em um momento de carreira brilhante como diretora de criação em uma agência de publicidade quando percebeu que não tinha muitas inspirações femininas em uma área dominada por homens.

Decidida a encontrar chefes mulheres, mas com dificuldade, ela escreveu os cinco nomes de cinco executivas da publicidade que ela conhecia em um documento do Google, enviou o arquivo para alguns amigos e abriu o acesso para edição no Fishbowl, um site para pessoas da indústria publicitária.

Em apenas alguns dias, centenas de pessoas haviam contribuído, e o projeto Where Are the Boss Ladies (Onde Estão as Chefes, em português) passou de uma lista compartilhada para um movimento. Ela atenciosamente concordou em conversar sobre sua jornada e ofereceu algumas dicas para futuras mulheres na chefia.

Forbes: Conte um pouco sobre sua carreira, onde você começou e como você chegou aonde está atualmente.

Mara Lecocq: Eu trabalhei por 12 anos com publicidade, eventualmente como diretora criativa para marcas como Starbucks, Nike, Verizon, McDonald’s, e em agências como AKQA, 72andSunny e BETC Paris.

Eu dei um tempo por dois anos para lançar minha primeira companhia, um livro infantil feminista customizado e um jogo de codificação. Então, enquanto estava em um momento reflexivo sobre voltar para a indústria publicitária, “acidentalmente” comecei a minha segunda companhia, Where Are the Boss Ladies, que é agora a maior base de dados sobre mulheres na liderança executiva da publicidade.

Mais recentemente comecei na Fishbowl, uma plataforma em que profissionais da mesma área podem ter conversas semi-anônimas sobre trabalho, ironicamente o lugar em que o Where Are the Boss Ladies se tornou viral e onde eu encontrei minha co-fundadora e esposa de trabalho, Christina Jones. Eu lidero o departamento de Marca e Comunidade por lá. E, sim, inventei esse título. É o que acontece com empresas inovadoras, há novas necessidades e novos papéis a serem criados e você só precisa ser criativo.

F: Você já encarou algum desafio por ser mulher em sua área? Como lidou com isso?

ML: Questionar meu estilo de personalidade foi meu maior desafio. Eu sempre ouvi que os melhores líderes exigem respeito e são intransigentes. E isso simplesmente não sou eu. Eu sou espontânea, empática e amigável, mas algumas vezes em um ambiente com muitas regras eu me torno calada, o que me faz contestar minha habilidade de liderança.

Com o tempo, percebi que essas inseguranças estavam na minha cabeça e até encontrei pessoas que gravitavam em direção a mim, talvez porque eu pareça autêntica e confiável. Eu também não tive medo de questionar autoridade (de uma certa forma), então fiquei surpresa com pessoas que queriam saber “Quem é essa pessoa quieta e bondosa que também manda tanto? Talvez eu a ouça”.

F: Conte me sobre o Where Are the Boss Ladies e por que você sentiu a necessidade de criar esse projeto?

ML: Sempre foi difícil para mim encontrar mulheres que conseguem chegar e se mantêm em cargos de liderança. Parecia um ciclo terrível. Uma batalha tão complicada para atingir o topo. E, uma vez lá, a falta de recursos para as mulheres saberem o que fazer ou em quem se inspirar e validar sua existência. Isso faz com que seja difícil não pensar em desistir.

O 3% Movement, uma organização com a missão de trazer diversidade para a publicidade, teve o nome batizado com base nas porcentagem de mulheres criativas em cargos de liderança. Mulheres ainda são 15% menos representadas em qualquer nível a que sejam promovidas. Por exemplo, 45% diretoras adjuntas de criação, 29% são diretoras criativas, e 15% são diretoras executivas de criação. Dá para ver como essa tendência vai.

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Isso me fez refletir sobre minha própria experiência. Eu dei esses dois anos de pausa da publicidade no auge da minha carreira por que eu também não conseguia “me enxergar” na área? Em 12 anos, três países e 13 chefes diferentes, eu nunca tive uma chefe mulher. A gota d’água foi quando eu vi no Fishbowl que um diretor executivo de criação pode fazer um salário maior que US$ 410 mil por ano. Eu pensei: “Espere um minuto, então, as mulheres estão largando carreiras em que podiam estar rendendo 400 vezes mais caso se destacassem, por que elas não se sentem representadas e não tem um caminho claro para a liderança? Isso é loucura”.

Eu decidi voltar, mas somente se trabalhasse para uma mulher. Comecei uma lista de cino nomes que eu conhecia em um documento compartilhado do Google. Então, coloquei no Fishbowl como acesso aberto. A partir desse momento, o projeto explodiu.

F: Qual foi a sua reação quando viralizou? Ficou surpresa?

ML: Foi a melhor surpresa e o melhor sentimento do mundo. Saber que decisões de carreira das mulheres estavam sendo fortemente impactadas pela lista, que mulheres negras estavam nutrindo esperança porque viram com quem elas se identificam em posições de poder. Um de meus momentos preferidos foi saber que a Netflix tinha procurado uma mulher negra que não aparecia em nenhum outro lugar além desta lista.

F: Conte-me sobre como você vê a evolução do mundo do marketing e da publicidade nos últimos anos e para qual caminho você acha que estamos indo?

ML: Houve uma mudança no que as pessoas talentosas consideram como importante e não são prêmios sem sentido de indústria. Pessoas talentosas se importam em causar um impacto, ter experiências e uma vida também. Nós realizamos um estudo na Fishbowl que mostrou que 60% das pessoas que trabalham em agências de publicidade querem trabalhar em casa e 13% já deram esse salto, porque companhias oferecem um melhor equilíbrio entre vida profissional e profissional e sabem manter os funcionários mais motivados do que as agências. Para onde o talento vai, o dinheiro vai também.

F: Eu e você somos da X-ennials, a pequena geração que se divide entre se denominar geração X ou millennials mais velhos. O que você enxerga como a maior divisão entre gerações no mundo de trabalho e como isso vai mudar agora que os jovens millennials estão se tornando líderes?

ML: Eu me identifico mais como uma millennial velha. Nós falamos muito sobre diferenças raciais e de gênero no mundo do trabalho, mas eu sempre acreditei que diferenças de geração carregam mais tensão.

A maior diferença é que a geração X tem uma percepção diferente sobre liderança. Valores como força, consistência e confiança inabaláveis. Trabalhar duro, “ter a pele grossa”. Foi assim que eles aprenderam a se tornar líderes.

Já os millennials valorizam autenticidade e vulnerabilidade. O que entra em conflito com o estilo de liderança antigo. Por exemplo, quando um líder da geração X comete um erro, sua reação instantânea geralmente é tentar esconder isso, encobrir ou focar no positivo.

Millennials não querem nada disso. Eles querem verdade. Eles são compassivos e capazes de perdão, desde que você ofereça honestidade e verdade.

F: Qual seria sua dica para mulheres que aspiram o sucesso no campo publicitário e de marketing, para todas as futuras chefes?

ML: É melhor trabalhar para um ótimo chefe em uma empresa mais ou menos do que com um chefe péssimo em uma empresa incrível. Além do mais, negócios se baseiam em relacionamentos. Mantenha-os. Nutra-os. E então use esses relacionamentos para conseguir todos os conselhos, apoio e ajuda que você precisa para se tornar uma mulher na chefia.

 

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