Variedade de negócios do setor de saúde movimenta a economia brasileira

Forbes
O setor de saúde no Brasil tenta acompanhar o acelerado movimento de transformação tecnológica que permeia produtos e processos ao redor do mundo

Raio X do setor

Quando alguém faz um exame de sangue, compra um remédio ou é atendido em um hospital, aciona uma das muitas engrenagens que movimentam um setor extremamente complexo e que tem papel fundamental na economia do país. A saúde privada no Brasil reúne principalmente hospitais e clínicas, serviços de diagnósticos – como laboratórios de análises clínicas e de imagem –, farmácias e fabricantes de medicamentos e de produtos médico-hospitalares. Estes incluem desde luvas descartáveis e aventais até aparelhos de ressonância magnética, reagentes para exames de laboratórios e os equipamentos que processam todos esses exames.

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Um dos aspectos que mais preocupam os gestores do universo da saúde é encontrar meios para usar os recursos de modo mais eficiente, reduzindo o desperdício de tempo, esforços e dinheiro. Essa busca tem movimentado grandes grupos e tem servido como mola propulsora para a criação de incontáveis healthtechs – startups focadas em saúde, geralmente apoiadas em inovações tecnológicas. O setor também observa atentamente a movimentação da economia de forma mais ampla. “A saúde privada depende diretamente da situação econômica e da geração de empregos para crescer. Quando a economia vai bem, aumenta o acesso aos hospitais, que é feito principalmente por usuários de planos de saúde”, explica Ary Ribeiro, vice-presidente do Conselho de Administração da Anahp, entidade de classe que tem 118 associados, entre eles os maiores hospitais do país.

Segundo Ribeiro, em 2018, os hospitais geraram 96 mil empregos, o que representa um crescimento de 81% em relação ao ano anterior. Somente nas atividades de atendimento foram criados 37 mil empregos.

Para a indústria farmacêutica, outro aspecto da economia que pesa na balança é a carga tributária, pois ela tem impacto no acesso da população aos medicamentos. “O desenvolvimento de um produto farmacêutico demora de oito a 12 anos, com investimentos que podem chegar a US$ 1,5 bilhão. Em nosso setor, a carga tributária é de 33%, ou seja, de cada R$ 100 que custa um produto, R$ 33 vão para o governo, quando ele é que deveria fomentar o acesso da população aos medicamentos”, diz Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), que representa 370 empresas nacionais e internacionais. Seus associados detêm mais de 95% do mercado de medicamentos do país e geram cerca de 90 mil empregos diretos e 500 mil indiretos.

A conjuntura também é motivo de preocupação para Paulo Henrique Fraccaro, superintendente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios (Abimo), que representa 315 empresas de um universo de 600. “Há muito tempo reivindicamos uma política setorial específica para repensar aspectos como tributação, apoio à inovação, fomento e financiamentos, que não existem para a área de equipamentos e produtos descartáveis”, argumenta.

Regulação é um grande desafio para os prestadores de serviços de exames de imagem e análises clínicas, afirma Claudia Cohn, presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed). “As agências reguladoras da saúde e o próprio Ministério deveriam examinar os impactos na saúde privada antes de publicar novas regulamentações”, explica. Não são raros os casos em que normas são modificadas porque causaram um efeito mais negativo do que positivo. Na tentativa de minimizar esse tipo de problema, sociedades de especialidades médicas e entidades de classe, como a Abramed, oferecem seus especialistas para auxiliar na regulamentação.

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À parte essas queixas, o setor de medicina diagnóstica no país é imenso. Em 2017 foram realizados 2 bilhões de exames de imagem e análises clínicas – 817 milhões deles foram feitos na rede suplementar ou privada. No mesmo ano, o mercado de medicina diagnóstica no Brasil gerou receita bruta de R$ 35,4 bilhões.

Diretamente ligadas à medicina diagnóstica estão 45 empresas associadas da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), que fornecem produtos e equipamentos para laboratórios clínicos. “Nosso principal desafio é oferecer produtos cada vez mais inovadores para diagnóstico”, diz Carlos Eduardo Gouvêa, presidente executivo da CBDL. O setor cresceu 8,8% nos últimos 12 meses em consumo aparente (produção industrial doméstica mais importações menos exportações), chegando a cerca de US$ 2 bilhões.

Para as farmácias, o maior desafio, dentro da onda global de priorizar a prevenção de doenças, tem sido melhorar a participação desses estabelecimentos nos cuidados com a saúde dos clientes e ampliar a oferta de serviços. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sergio Mena Barreto, “até 2013, casos simples como gripes ou intoxicação alimentar demandavam atendimento em postos de saúde e hospitais”.

Barreto explica que o orçamento público não consegue arcar sozinho com todos os gastos. É essa lacuna que as farmácias tentam preencher, ao oferecer serviços de revisão de medicamentos, acompanhar o tratamento indicado pelo médico, medir pressão e níveis de colesterol e glicose, além de aplicar vacinas. Esse atendimento é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Abrafarma reúne 25 grandes redes de farmácias no Brasil que, juntas, geram 129 mil empregos diretos. O varejo farmacêutico soma 78 mil estabelecimentos e movimenta R$ 100 bilhões.

Inovação

Inteligência artificial, machine learning, realidade aumentada… O setor de saúde no Brasil tenta acompanhar o acelerado movimento de transformação tecnológica que permeia produtos e processos ao redor do mundo. Nas páginas a seguir, você conhecerá um pouco da história e das aplicações de avanços como a telemedicina, entre várias outros avanços e novas ferramentas. Outra dessas ferramentas – e que tem se mostrado extremamente útil no universo da medicina – é a realidade virtual (ou realidade aumentada). Equipamentos de realidade virtual permitem a médicos e enfermeiros praticar procedimentos em um ambiente de total imersão.

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É o que tem feito desde o ano passado a Johnson & Johnson Medical Devices em suas unidades de São Paulo e Recife. Como o projeto começou dentro da área de ortopedia da empresa, o foco da plataforma, por enquanto, ainda está centrado nessa especialidade. “Fazemos treinamentos para cirurgias de artrosplatia de joelho, em que a articulação é substituída por uma prótese, e de quadril, além de procedimentos em trauma com fratura de quadril e cirurgia ortognática, para os maxilares”, explica Elisabete Murara, diretora sênior de educação para América Latina. Em breve, a empresa iniciará treinamentos em cirurgia geral.

Na prática

Um caso real ilustra esse cenário de inovação aplicada. Preocupada com os problemas de fala da filha Sofia, que nasceu com síndrome de Down e aos 3 anos ainda apresentava dificuldades, a cientista de computação Marinalva Soares procurou ajuda da amiga e pesquisadora Alessandra Macedo na USP de Ribeirão Preto. Depois de muita pesquisa, nasceu o aplicativo SofiaFala, que usa inteligência artificial para interpretar e avaliar a qualidade da fala de crianças com Down. O programa capta o som emitido e, por uma interface que incentiva a criança a participar, como se fosse um jogo, ajuda-a a pronunciar corretamente as palavras. Ao mesmo tempo, envia as informações ao fonoaudiólogo para que ele possa acompanhar a evolução do aprendizado.

O app recebeu financiamento do CNPq e começou a ser desenvolvido em 2016. O trabalho reuniu uma equipe multidisciplinar da universidade, formada por profissionais de áreas de ciência da computação, fonoaudiologia, engenharia e psicologia. Foi lançado este ano.

A saúde do C-level em perigo

Pressão por resultados e hábitos ruins aumentam riscos de AVC e infarto em executivos – e executivas

Se, como dizia o filósofo Jean-Jacques Rousseau, o homem é produto do meio, o ambiente em que o brasileiro vive está bastante nocivo. É o que se deduz dos resultados de milhares de check-ups realizados pela clínica Med-Rio Check-up, especializada em executivos e profissionais liberais.

“Temos visto, por exemplo, um aumento de casos de depressão. Eles passaram de 8% para 11% do total de 2017 para 2018”, ilustrou o médico especializado em medicina preventiva e CEO da clínica, Gilberto Ururahy. Ele cita ainda o aumento de casos de estresse, excesso de peso, sedentarismo, insônia, hipercolesterolemia, hipertensão e diabetes nos mais de 10 mil exames realizados anualmente.

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As incertezas da economia e o acúmulo de tarefas, de responsabilidades e de metas agressivas – além da sensação de responsabilidade sobre o destino dos colaboradores e de suas famílias – ajudam a desarmar as defesas do organismo dos profissionais no alto da pirâmide. As portas se abrem perigosamente para problemas graves – como AVC e infarto do miocárdio, além da já citada depressão.

De modo geral, há carência de levantamentos sobre a saúde do brasileiro, incluindo as principais causas de morte no país. Por isso, levantamentos como o da Med-Rio servem como baliza para enxergar o cenário e traçar ações preventivas.“Além de aspectos físicos, fazemos várias avaliações no campo emocional: estresse, ansiedade e depressão. No âmbito cardiológico, constatamos que 22% da população examinada é hipertensa; 50% têm alta taxa de colesterol ruim (LDL); e a insônia aumentou de 18% para 25% do universo pesquisado de 2017 para 2018”, diz o CEO da clínica – que já realizou cerca de 140 mil check-ups desde o início das atividades.

Sexo mais frágil

“Em 1990, quando a empresa começou a operar, apenas 10% do público era do sexo feminino. Hoje representa 40%, em razão da maior inserção da mulher no mercado de trabalho e da adoção de hábitos que até então eram mais característicos do sexo masculino, como fumar e beber.”

Como melhorar esse quadro? Para o especialista, pela educação e pelo comprometimento – a transformação só pode ocorrer se o indivíduo quiser e agir para isso. A começar pela alimentação: maus hábitos alimentares têm contribuído não só para a epidemia de obesidade como também para o aumento dos casos de esteatose hepática (gordura no fígado) não alcoólica.

Um fator que tem contribuído para a melhora do quadro geral é justamente o avanço dos check-ups, que tempos atrás eram considerados um benefício exclusivo, que a empresa dava a poucos executivos, e hoje se transformou numa ferramenta de segurança empresarial.

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O processo de contratação de um C-level custa caro para a empresa. Por isso, é melhor contar com seus altos executivos em plena forma desde o início. “O check-up se incorpora cada vez mais ao mundo empresarial”, destaca o médico – que prevê crescimento anual de até 15% nesses procedimentos para os próximos anos. (CV)

Telemedicina

Novo “conjunto de ferramentas” revoluciona o setor e deve movimentar R$ 12,2 bilhões

A telemedicina é um conjunto de ferramentas que permitem maior integração no sistema de saúde, como conectar hospitais, médicos e serviços de saúde. A explicação é do cirurgião cardiovascular Edmo Gabriel, que ensina essa disciplina na Faculdade Unilagos, em São José do Rio Preto (SP). Em abril, ela foi tema do Global Summit Telemedicine & Digital Health, em São Paulo. No evento, chegou-se à conclusão de que a telemedicina é um caminho sem volta e que sua tendência é ganhar adesão de todas as especialidades médicas, com uma taxa de crescimento de 20% ao ano – até 2022, deve movimentar R$ 12,2 bilhões.

No início do ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou uma resolução que detalhava os requisitos para telemedicina e temas relacionados, como teleconsulta, telediagnóstico, telecirurgia, teleconferência, teletriagem médica, telemonitoramento, teleorientação e teleconsultoria. O documento foi motivo de polêmica. Diante da repercussão, o CFM suspendeu temporariamente sua validade para analisar os pontos que geraram discussão. A atualização de normas que regulem a telemedicina e o que ela compreende já deveria ter acontecido. As regras em vigor são antigas (de 2002) e genéricas. Muita coisa mudou, como mostra uma pesquisa da Associação Paulista de Medicina (APM) divulgada em abril. Segundo o estudo, 82,5% dos médicos paulistas afirmaram que utilizam tecnologias no dia a dia para assistência aos pacientes, entre elas os aplicativos de mensagens. Quase 85% dos entrevistados defenderam que as informações de saúde dos pacientes estejam disponíveis em nuvem, com proteção dos dados mas com acesso permitido aos médicos. A maioria dos entrevistados também disse acreditar que esse compartilhamento beneficia profissionais, pacientes e o sistema de saúde.

Em São Paulo, o Hospital Albert Einstein usa a telemedicina síncrona, que conecta médicos e pacientes em videoconferências. Outros recursos incluem reuniões virtuais, em que médicos discutem casos, e a tele-UTI, em que os especialistas “visitam” os pacientes à distância, acompanhados de um plantonista no local e à beira do leito. Hospitais do Grupo Leforte, também na capital paulista, usam o recurso no atendimento de emergências em neurologia, como AVCs, crises convulsivas e traumatismos cranianos.

Segundo o médico Cesar Biselli, coordenador de Inovação e Tecnologia do Hospital Sírio-Libanês (SP), a telemedicina representa mudanças “que desafiam os médicos e os conselhos profissionais a se adaptarem de modo a integrar essas soluções em sua rotina, compartilhar decisões com outros profissionais à distância, sem perder a qualidade e a confiabilidade das relações entre profissionais e pacientes”.

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O cardiologista Roberto Botelho, membro-fundador da Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde ao lado de nomes como Adib Jatene, Raul Cutait e Gyorgy Bohm (criador da disciplina de informática médica no Brasil), é um dos pioneiros da prática no país. No início das pesquisas, conheceu um especialista da Nasa que queria levar para a prática clínica o que já fazia com astronautas em órbita: monitorar sinais vitais à distância. “Ele transformava um eletrocardiograma em sinal de modem; o exame era transmitido por telefone fixo e depois decodificado na outra ponta”, lembra.

Botelho e sua equipe aprimoraram a tecnologia da Nasa e a aplicaram na América Latina. Com a ajuda de inteligência artificial e da nuvem de dados, eles ajudam centros que não têm cardiologistas (como inúmeras UPAs pelo Brasil) a fazer diagnósticos de infarto nos pacientes que dão entrada com sintomas característicos, como dores no peito. O paciente é imediatamente submetido a um eletrocardiograma; os dados são enviados para uma central remota que, em três minutos, devolve o diagnóstico, indica os procedimentos e faz os encaminhamentos necessários, além de alertar os hospitais especializados envolvidos no programa para a chegada iminente de um infartado. Em quatro anos, o programa atendeu 800 mil pessoas com sintomas suspeitos e diagnosticou 8 mil infartos. “Reduzimos a mortalidade em 50%”, comemora Botelho. Os custos também caíram pela metade – estudos indicam que o Brasil gasta anualmente R$ 22 bilhões com essa doença. “O próximo passo da telemedicina é chegar ao cidadão onde ele estiver, via celular e smartwatches, por exemplo. Basta a regulamentação sair para isso se tornar realidade.” (RD)

Doenças crônicas

Incidência cresce entre jovens e crianças; recursos tecnológicos permitem diagnóstico precoce

Um fenômeno que vem se tornando preocupantemente comum é a incidência cada vez maior de doenças crônicas em adultos jovens, crianças e adolescentes. Segundo o cardiologista e clínico geral Marcelo Sampaio, há algumas décadas eram muito raros os casos de infarto em pessoas com menos de 35 anos. A situação mudou. O médico diz que vê pacientes ainda na adolescência, dos 13 aos 17 anos, infartando. Para ele, parte desse problema é resultado de nosso estilo de vida atual, em que as pessoas estão sujeitas aos chamados fatores de risco, como fumo, álcool, uso de drogas, obesidade, sedentarismo e elevados níveis de estresse.

As principais doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) que afetam a população brasileira são as cardiovasculares, como hipertensão arterial, doença arterial coronariana – que pode provocar infarto agudo do miocárdio –, insuficiência cardíaca congestiva, acidente vascular cerebral (AVC), doenças respiratórias crônicas, diabetes e tumores. Estes, em alguns casos, já podem ser considerados crônicos graças aos recursos tecnológicos, que permitem um diagnóstico precoce, e aos novos medicamentos.

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A hipertensão arterial é uma doença silenciosa, não apresenta sintomas visíveis. De acordo com Sampaio, um em cada cinco brasileiros é hipertenso. “A pessoa pode passar muitos anos sem saber que sofre de hipertensão arterial, sem fazer exames nem se tratar. Quando descobre, já está com os rins prejudicados – a lesão renal é uma das consequências dos níveis elevados de pressão”, alerta o cardiologista, que é coordenador do pronto atendimento da Beneficência Portuguesa de São Paulo. (RD)

Diabetes

A doença vem crescendo de forma alarmante e já pode ser considerada um problema de saúde pública – afeta de 8% a 9% da população brasileira. As duas formas da doença são o tipo 1 – conhecido com diabetes infanto-juvenil – e o tipo 2, que afeta adultos. Este é provocado em grande parte pela obesidade e sedentarismo, sendo um fator de risco para infarto e AVC. “O diabetes tipo 2 é outra doença silenciosa, porque os níveis elevados de açúcar não provocam nenhum sinal nem sintoma no início, mas ao longo dos anos isso vai afetar diversos órgãos. Às vezes, o primeiro sinal de diabetes pode ser um derrame”, explica Sampaio.

Prevenir e controlar

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são responsáveis por 71% das mortes no mundo. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, a proporção é ainda maior: 74%. Apesar desses altíssimos índices, a maioria dessas doenças pode ser prevenida ou controlada, o que permite manter boa qualidade de vida.

Influência genética

As doenças crônicas são resultado de uma interação entre a carga genética do indivíduo e fatores ambientais, ou fatores de risco – fumo, alcoolismo, obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada, estresse. A carga genética pode ser herdada, mas também pode decorrer de mutações ou alterações nos genes. Daí a importância de manter hábitos saudáveis e fazer exames regulares para medir a pressão, o colesterol e a glicose e controlar o peso. “No Brasil é comum a pessoa ir ao médico somente quando sente alguma coisa”, diz Sampaio. “É preciso mudar essa cultura e fazer avaliações regulares para se conhecer por dentro, sentindo-se bem ou não”, diz Sampaio.

Combate ao câncer

Biópsia líquida detecta células ou fragmentos de DNA de tumores que circulam no sangue, na urina ou na saliva

Novas técnicas que analisam mutações nos genes dos tumores têm permitido aos médicos obter diagnósticos mais precoces e precisos e, assim, direcionar melhor o tratamento. “Nas últimas décadas, o conceito de medicina personalizada vem ganhando cada vez mais força na oncologia, e os testes moleculares são ferramentas para essa prática”, explica a oncologista clínica Marcela Crosara, coordenadora médica do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

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Alterações ou mutações anormais no DNA de um gene podem levar ao surgimento de um tumor. A análise das células em nível molecular permite identificar a mutação do gene, mapear alterações individuais daquele tipo de câncer e, até mesmo, determinar qual é a medicação mais adequada, o que aumenta as chances de o tratamento ser bem-sucedido, ao mesmo tempo que evita o uso de terapias desnecessárias ou que não seriam benéficas ao paciente, segundo Crosara.

Uma técnica empregada recentemente é a biópsia líquida, que detecta células ou fragmentos de DNA de tumores que circulam no sangue, na urina ou na saliva. Ela tem sido aplicada para rastreamento precoce de câncer, de modo menos invasivo, para estudar as características moleculares do tumor e avaliar a resposta ao tratamento.

No entanto, de acordo com o oncologista Fernando Santini, médico titular do Centro de Oncologia do Sírio-Libanês, o uso da biópsia líquida ainda não é tão amplo porque sua indicação é mais comprovada para tumor de pulmão, tanto para o diagnóstico inicial quanto para a detecção de resistência ao primeiro tratamento.

“Para diagnosticar o tumor de um modo geral, ainda precisamos retirar e analisar uma amostra do tecido desse tumor para saber seu ‘nome’ e ‘sobrenome’, isto é, se é um adenocarcinoma, um tumor escamoso ou outro tipo”, esclarece Santini, que também é médico titular do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.

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Ele explica que a biópsia de tecidos também utiliza métodos de análise molecular e, dependendo do tipo de câncer, é realizada por meios relativamente simples. “Para um tumor de pulmão, por exemplo, é feito um procedimento minimamente invasivo, em que se introduz uma agulha que é guiada pela tomografia para coletar uma amostra do tecido. Da mesma forma isso é feito para o fígado”, diz o oncologista. Caso o material retirado não seja suficiente para fazer a pesquisa molecular, então pode ser usada a biópsia líquida.(RD)

Vida mais saudável

Estudo feito em conjunto pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade de Harvard (EUA), publicado em abril na revista científica Cancer Epidemiology, concluiu que adoção de hábitos de vida saudáveis poderia evitar 63 mil mortes por ano no Brasil devido ao câncer. O trabalho utilizou dados da OMS e de instituições brasileiras de pesquisas. Os resultados mostram que tabagismo, álcool, sedentarismo, obesidade e consumo de alimentos muito industrializados estão relacionados a 20 tipos de câncer. Hábitos saudáveis ajudariam a evitar 114 mil novos casos a cada ano.

Doenças infectocontagiosas

Democráticas, elas afetam todas as classes socioeconômicas; laboratórios brasileiros usam técnicas de Primeiro Mundo

Ele mede apenas 1 centímetro de comprimento, tem o corpo facilmente identificado por listras e se tornou o grande vilão dos centros urbanos. É o famosíssimo Aedes aegypti, mosquito transmissor das principais doenças infectocontagiosas que afetam a população brasileira, classificadas como arboviroses – dengue, chikungunya, zika e, mais recentemente, febre amarela, depois que esta deixou de ser uma doença exclusiva das matas e se disseminou por capitais, inclusive na populosa e urbanizada região Sudeste.

Segundo o infectologista Alberto Chebabo, do laboratório Alta Diagnósticos, teoricamente as arboviroses são mais frequentes em áreas de baixa renda, em locais que geralmente favorecem a proliferação do mosquito. “Mas como há cidades em que populações de diferentes classes socioeconômicas vivem muito próximas, no mesmo bairro ou até na mesma rua, a doença afeta todo mundo”, diz. Nessas condições, o mosquito não escolhe suas vítimas para a próxima refeição. As arboviroses se tornaram um problema de saúde pública também em países desenvolvidos da Europa e nos EUA.(RD)

Fígado na mira

Hepatite é uma doença que provoca a inflamação do fígado e pode ser causada pelo uso de alguns remédios, por alcoolismo, por outras doenças e também por vírus. As virais são classificadas pelas letras A, B, C, D e E. No Brasil, mais de 70% das mortes por hepatites virais são consequência da C, seguida da B (21,8%) e da A (1,7%). A D é mais frequente na região Norte. Muitos têm o vírus da B ou da C e não sabem. Assim como as arboviroses, elas também não escolhem suas vítimas. Em maio, um campus da UniRio foi interditado após diversos casos de hepatite A. A vigilância sanitária concluiu que as cisternas da universidade foram contaminadas durante os temporais que alagaram o Rio de Janeiro em abril.

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Principais sintomas

As arboviroses apresentam sintomas muito parecidos e incluem febre, mal-estar, dor de cabeça, nas articulações, nas costas ou em todo o corpo, manchas vermelhas e erupções na pele, além de náuseas, vômitos, fadiga e fraqueza. O paciente com hepatite pode sentir cansaço, febre, mal-estar, tontura, náuseas, vômitos, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras.

Diagnóstico avançado

Muitos laboratórios clínicos brasileiros já utilizam técnicas avançadas, como os métodos moleculares de diagnóstico, que permitem detectar a doença com mais rapidez e precisão. “Temos na rede privada uma estrutura para diagnóstico ‘up to date’ muito semelhante à que se encontra nos países desenvolvidos”, diz Chebabo. Arboviroses e hepatites virais fazem parte da lista de doenças de notificação compulsória do Ministério da Saúde. Sempre que diagnosticarem um caso, médicos e serviços de saúde públicos e privados devem obrigatoriamente informar as autoridades. Os dados são importantes para determinar ações de combate a essas doenças.

Dores crônicas

Mal afeta mais mulheres que homens; um único remédio rende quase R$ 500 milhões às farmácias

Pesquisa da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) entrevistou recentemente 990 pessoas, entre homens e mulheres. Do total, 42% das pessoas ouvidas relataram sentir algum tipo de dor, enquanto 37% responderam que vivem com dor há mais de seis meses. Outro dado obtido no levantamento: as mulheres são mais afetadas (56%) do que os homens (44%). As dores mais comuns são as lombares, nas articulações, no rosto, na boca, pescoço e cabeça. Tem crescido também o diagnóstico de fibromialgia.

Para alívio do incômodo, de forma geral os médicos indicam exercícios físicos, correção postural, reeducação alimentar, vacinação (como contra herpes-zóster) e controle de diabetes e hipertensão.

“A dor constante e persistente pode causar depressão e ansiedade e interferir em quase todas as atividades. Os pacientes podem se tornar inativos, socialmente afastados e preocupados com sua saúde física”, explica o reumatologista Dante Bianchi, do Hospital Copa D’Or, do Rio de Janeiro. A condição pode ainda prejudicar o sono, provocar irritabilidade, perda de interesse sexual, abuso de álcool e drogas e até mesmo levar a pensamentos suicidas.

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“Por isso, a intervenção e seu tratamento são fundamentais”, alerta o anestesiologista Fabio Curtis, do Departamento de Anestesiologia e Dor da Faculdade Unilagos de São José do Rio Preto (SP). Ele explica que existem várias causas para a dor crônica, como artrite, lombalgia (costas), cefaleia (cabeça), lesão de um nervo, câncer, refluxo gastro- -esofágico, fibromialgia, endometriose e cirurgia. O importante, segundo os especialistas, é procurar um médico e não aceitar “diagnósticos” ou sugestões de tratamento de parentes ou amigos, tampouco se automedicar.(RD)

Fibromialgia

Em muitos casos, o médico chega ao diagnóstico de fibromialgia depois de realizar exame físico específico, de laboratório e de imagem e descartar outras doenças com sintomas parecidos. Ela não tem cura, suas causas são desconhecidas e afeta mais as mulheres, principalmente entre 25 e 65 anos. “Como a dor não tem uma origem definida, nem sempre analgésicos e anti-inflamatórios ajudam. Em muitos casos, os medicamentos que surtem algum efeito são os da classe dos antidepressivos, neuromoduladores e relaxantes musculares”, diz Bianchi. Há casos em que a dor diminui e quase desaparece, mas depois volta sem motivo aparente. Em maio foi anunciado um novo método para alívio do problema: um aparelho que une laser e ultrassom (foto) desenvolvido pelo Instituto de Física de São Carlos, da USP. Aplicado na mão do paciente por três minutos, diminuiu os sintomas em 90% deles após dez sessões.

Novos tratamentos

A chamada “indústria da dor” movimenta desde terapias alternativas (como homeopatia, florais, acupuntura, hipnoterapia, hidroterapia, ayurveda e medicamentos à base de Cannabis) até o remédio convencional mais consumido pelos brasileiros – o Dorflex (da Sanofi), que rende anualmente R$ 470 milhões às farmácias. “Hoje há centros especializados no tratamento da dor crônica, com abordagem multidisciplinar e profissionais habituados a esse tipo de atendimento, como anestesiologistas, neurologistas, reumatologistas, fisioterapeutas, psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais”, afirma Fabio Curtis. Umadas novidades é a medicina regenerativa, que usa células-tronco retiradas do próprio paciente

Depressão

Já considerada o mal do século 21, doença provoca boom na venda de medicamentos no Brasil

Os problemas cardiovasculares ocupam o primeiro lugar entre as doenças consideradas incapacitantes, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Porém, a instituição alerta para o crescimento dos casos de depressão no mundo. Se continuar nesse ritmo, a doença vai passar da vice-liderança para o topo em pouco tempo. O que também preocupa os especialistas é o aumento de incidência em pessoas cada vez mais jovens, incluindo crianças.

Para a presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Carmita Abdo, o aumento dos casos de depressão ocorre, em parte, porque atualmente se consegue obter um diagnóstico mais preciso e há mais acesso a informações sobre a doença, o que faz com que as pessoas procurem um médico ou sejam levadas a ele pela família ou amigos. “A depressão atinge a parte emocional, com sentimentos de tristeza, menos-valia, incompetência, desconforto e desinteresse em relação a todas as atividades”, diz a médica.

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Depressão também pode provocar fadiga e dores intermitentes – algumas vezes, em todo o corpo –, afeta o raciocínio, a memória e a capacidade de concentração. Em casos extremos, leva a pensamentos suicidas. O paciente pode ter um ou mais desses sintomas.

Hormônios e estilo de vida

Variações hormonais são responsáveis pelo fato de mulheres apresentarem duas vezes maior incidência de depressão que os homens. Carmita Abdo lembra que, ao longo da vida, elas estão sujeitas a diversas alterações nos níveis de hormônios – no período menstrual, na gravidez, após o parto, durante a amamentação, no climatério e na menopausa.

Ela também aponta o estilo de vida atual como responsável pelo crescimento da doença, independentemente da idade. “Adultos jovens que ocupam cargos de destaque na profissão costumam ser submetidos a muita pressão e estresse. Quando alcançam a posição com que sonhavam, sentem-se sobrecarregados e não recompensados pelo seu esforço. Acabam frustrados e deprimidos”, destaca ela.

A psiquiatra Carolina Hanna, do Hospital Sírio- -Libanês, em São Paulo, chama atenção para o uso excessivo da tecnologia, especialmente entre crianças e adolescentes. “As ferramentas atuais de comunicação são uma forma de promover interações sociais e a sensação de pertencimento. Mas o excesso contribui para piorar um cenário de depressão, uma vez que a criação da empatia não se dá de forma completa”, explica. “Somos seres de cinco sentidos. O encontro presencial é insubstituível para podermos compartilhar abraços, refeições, olhares e tantos outros momentos. São formas de criar laços afetivos mais inteiros, cruciais para combater sintomas depressivos.”

Um estudo da IQVA, empresa norte-americana de auditoria e pesquisa do mercado farmacêutico, mostra que a venda de remédios antidepressivos no Brasil explodiu entre 2013 e 2018. Entre julho daquele ano e julho de 2014, foram vendidos cerca de 47 milhões de comprimidos. Entre os mesmos meses de 2017 e 2018, o número de cápsulas comercializadas saltou para 71 milhões. Nesses dados não se consideram as compras feitas pelo governo nem por hospitais e clínicas.

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Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 11 milhões de brasileiros sofrem de depressão e ansiedade. Se por um lado isso representa maior faturamento da indústria farmacêutica, por outro implica impacto macroeconômico – a doença afeta o desempenho no trabalho, é causa de absenteísmo e afastamento das atividades profissionais.

Os problemas relacionados à saúde mental não são exclusividade do Brasil. De acordo com o Fórum Econômico Mundial (WEF), eles afetam 700 milhões de pessoas em todo o planeta. Por isso, pela primeira vez o relatório do WEF divulgado este ano incluiu a saúde mental e seus efeitos como um dos riscos ao crescimento econômico mundial e à estabilidade global. Segundo o documento, os dados não confirmam que esses problemas aumentaram na população como um todo, mas indicadores mostram que eles vêm crescendo nas gerações mais jovens. (RD)

Longevidade

Aumento na expectativa de vida abre oportunidades de negócios em várias frentes

Longevidade é a tendência demográfica mais importante deste século. Não há nada que tenha mais influência direta em todos os aspectos da sociedade do que o envelhecimento da população – o fenômeno afeta a economia, o mercado de trabalho, a saúde, a educação e até o meio ambiente, entre vários outros aspectos. A afirmação é do médico Alexandre Kalache, que estuda o tema há 44 anos e preside a seção brasileira do Centro Internacional da Longevidade (ILC-Brasil).

“É um processo revolucionário. A expectativa de vida de quem nasceu no Brasil na década de 1940 não passava de 40 anos, e agora estamos chegando aos 77”, diz Kalache, que dirigiu de 1994 a 2008 o Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Ele explica que a longevidade abre grandes possibilidades de negócios. “Segundo o Instituto de Pesquisa Locomotiva, no Brasil há 54 milhões de pessoas com 50 anos ou mais, que movimentam R$ 1,6 trilhão. Todo mundo quer envelhecer com saúde, e muita gente já percebeu que, para isso, precisa mudar seu estilo de vida e ter acesso a serviços de saúde que vão lhe oferecer mais segurança e proteção”, destaca. São oportunidades que se abrem para o setor farmacêutico, hospitalar, de diagnósticos, de tecnologias médicas e de cuidados do paciente.

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“Em outros países já existe o conceito de ‘casa inteligente’, em que a residência é adaptada com piso antiderrapante, barras de apoio, rampas, prateleiras e armários em alturas menores – e tudo é informatizado”, explica Kalache. Se a pessoa sofre uma queda, por exemplo, aciona um dispositivo (pode ser um gadget de pulso) que avisa um serviço à distância de socorro de urgência. A alimentação é fornecida por “restaurantes volantes”, que levam comida especial, conforme orientação de médicos e nutricionistas. (RD)

Mais mulheres e menos jovens no mercado de trabalho

O aumento da proporção de pessoas idosas na população deve-se aos recursos e tecnologias que permitem às pessoas viverem por mais tempo. Outro motivo é a queda da taxa de fecundidade, determinada pelo número médio de filhos que uma mulher tem no final de sua vida reprodutiva. “Há poucas décadas, a média de filhos na Inglaterra, por exemplo, era de 5,8. Hoje é de 1,7. Isso está abaixo do que se chama de nível de reposição, que é 2.” Essa mudança ocorreu entre 1975 e 2000 devido à evolução dos métodos contraceptivos, o que inseriu as mulheres no mercado de trabalho. “Por outro lado, há menos jovens produtivos para sustentar a população que envelhece”, aponta o especialista.

Os males dos millennials

Doenças “de velho” rondam a geração que nasceu imersa na tecnologia

Os médicos alertam: tem aumentado nos adultos jovens da chamada geração dos millennials (ou geração Y) os problemas de saúde que antes ocorriam em pessoas mais velhas. Exemplos: doenças cardiovasculares – infarto, acidente vascular cerebral (AVC), arritmias cardíacas graves – e depressão.

O cirurgião cardiovascular Edmo Gabriel diz que são cada vez mais frequentes cirurgias cardíacas de ponte de safena e de mamária em pessoas abaixo de 40 anos. “São procedimentos que antes eram considerados geriátricos. Essa geração apresenta lesões cardíacas gravíssimas no coração”, alerta o médico, que atua nos hospitais do Coração (HCor), Sírio-Libanês e Albert Einstein, em São Paulo.

“Tenho pacientes da geração millennial que vi envelhecer em apenas dois anos porque passaram a ocupar cargos e posições de extrema pressão psicológica. São pessoas que não souberam equilibrar sua vida para acompanhar esse ritmo”, conta o médico.

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Por ironia, casos como os que ele relata acontecem em uma época em que se debate longevidade e envelhecimento saudável. Segundo Gabriel, quando um jovem é submetido a esse tipo de cirurgia, há riscos de condená-lo a uma vida limitada porque, por mais que o resultado seja bom, seu coração já foi manipulado. “Se for preciso trocar uma válvula cardíaca em um jovem, daqui a dez ou 15 anos será necessário fazer nova troca, porque esse é o tempo de vida útil das válvulas usadas hoje em dia. Portanto, há um grande impacto para a produção intelectual, a situação financeira e o projeto de vida dessa pessoa.”

Pressão e estresse

Muitos millennials ocupam cargos de grande responsabilidade profissional e, por isso, são submetidos diariamente a pressões e níveis de estresse equiparados aos que, antes, enfrentavam pessoas com 60 ou 70 anos. “Em um primeiro momento, há empolgação e alegria, mas depois a pessoa se torna depressiva porque não consegue lidar com as pressões e frustrações do dia a dia, com as decepções profissionais e amorosas. A consequência pode ser uma doença grave, como infarto ou depressão”, analisa o especialista.

“Muitas vezes, o estilo de vida dessa geração inclui o uso intenso de álcool e drogas, associado ao acesso irrestrito à internet e formas muito dinâmicas de comunicação, o que cria uma sensação frequente de impaciência”, destaca a psiquiatra Carolina Hanna, do Hospital Sírio-Libanês (SP). Ela acrescenta que também ocorrem alterações de humor e crises de ansiedade.

A psiquiatra explica que é a primeira geração que enfrentou um processo completo de globalização e foi exposta a mudanças sociais e comportamentais importantes em relacionamentos, profissões, hábitos e referenciais. “Tudo isso é vivenciado como ruptura, porque suas famílias não conheciam essas mudanças e não puderam prepará-los para isso”, diz a médica.

Caminhos para a mudança

Os especialistas são unânimes sobre a importância de procurar orientação de médicos e profissionais de saúde. “Não basta a pessoa ter capacidade intelectual, currículo muito bom e títulos acadêmicos. Ela precisa de acompanhamento emocional e clínico”, alerta Edmo Gabriel.

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É preciso fazer um trabalho preventivo com médico e nutrólogo e criar um protocolo de atividades clínicas. Também é importante não abrir mão da vida pessoal e dedicar algumas horas ao lazer.

Carolina Hanna acrescenta que a combinação de psicoterapia com o uso de medicamentos costuma ser bastante eficaz, principalmente quando acompanhada de cuidados com a alimentação e a prática de atividades físicas. (RD)

Em nome da cura

Veja, na galeria de imagens a seguir, seis médicos brasileiros que revolucionaram o setor e colocaram o Brasil no mapa mundial da medicina:

  • Adolfo Lutz (1855-1940)

    Filho de suíços, Adolfo nasce no Rio, mas aos 2 anos vai à Suíça. Forma-se em medicina na Universidade de Berna em 1879. Após três anos como especialista em hanseníase no Havaí, volta ao Brasil e dirige o Instituto Bacteriológico (atual Instituto Adolfo Lutz) em São Paulo. Lutz é chamado por Oswaldo Cruz para o Instituto Manguinhos. Participa de expedições para pesquisar epidemias no Nordeste e no Sul. Dedica a vida ao combate de doenças como malária, esquistossomose e febre amarela, da qual confirmou a transmissão pelo mosquito Aedes aegypti. É referência no estudo do poder terapêutico das plantas brasileiras.

  • Oswaldo Cruz (1872-1917)

    “Se eu não exterminar a febre amarela em três anos, pode me fuzilar”, disse Oswaldo Cruz ao receber a missão de combater essa doença, a varíola e a peste bubônica que dizimavam o Rio de Janeiro no raiar do século 20. Paulista de São Luís do Paraitinga e apaixonado por microbiologia, Cruz formou-se em medicina no Rio e estudou dois anos no Instituto Pasteur, em Paris. Em 1903, organizou esquadrões de caça aos ratos no Rio, pagando 300 réis por bicho morto. Um ano depois, causou uma revolução na então capital do país – de gente contrária à vacinação contra a varíola. Cruz prevaleceu, e a varíola foi erradicada da cidade em poucos meses.

  • Carlos Chagas (1879-1934)

    Em 1902, Oswaldo Cruz assume o Instituto Manguinhos, no Rio, e contrata sanitaristas brilhantes, entre eles Carlos Chagas. Em 1905, o mineiro de Oliveira é chamado pela Companhia Docas de Santos (SP) para combater a malária. Docas construía a Hidrelétrica de Itatinga, mas a malária quase derrubou os planos. Com ações preventivas, Chagas resolve o problema em três meses. Após trabalhar dois anos em uma epidemia de malária em Minas Gerais, ele descobre a causa de outra doença fatal: o inseto barbeiro hospedava um protozoário, mais tarde batizado de Trypanosoma cruzi – em 1909, a nova doença recebe o nome de Chagas.

  • Dr. Zerbini (1912-1993)

    Quem diria que o jovem de Guaratinguetá (SP), levado pelo pai para a medicina, mas que não gostou do começo do curso e quase desmaiou ao ver uma cirurgia, entraria para a história como um dos pioneiros da cirurgia cardíaca no mundo. Dia 26 de maio de 1968, o doutor Zerbini liderou a equipe do Hospital das Clínicas que realizou o primeiro transplante de coração da América Latina – cinco meses após o primeiro do mundo, feito por Christiaan Barnard, na África do Sul. Quem recebeu o coração transplantado pelo paulista foi o mato-grossense João Ferreira da Cunha, de 23 anos. Ele morreu 28 dias após a operação.

  • Angelita Habr (não informado)

    Não caberia nesta página a quantidade de prêmios que a paraense da Ilha do Marajó, filha de libaneses, recebeu desde que se graduou na Faculdade de Medicina da USP em 1957. Referência mundial em oncologia, a professora doutora foi a primeira mulher a encabeçar o Departamento de Cirurgia da USP; é uma das principais proctologistas do Brasil; ministrou mais de 800 palestras dentro e fora do país e é membro honorário de oito associações mundiais. O início da carreira, porém, não foi simples. “Não aceitavam mulher nessa área. Foi uma grande luta. Dediquei-me muito e fui uma residente aplicada”, declarou.

  • Celina Turchi (1952-)

    De origem italiana, a goianiense de 66 anos é especialista em epidemiologia das doenças infecciosas e chamou a atenção do mundo científico ao comprovar a ligação do Zika vírus com o surto de microcefalia que assombrou o Nordeste brasileiro em 2016. Ela liderou a equipe que acompanhou a gestação de mulheres atendidas em oito maternidades públicas de Pernambuco. No período de 11 meses, 32 bebês nasceram com microcefalia – 13 infectados por Zika vírus. A velocidade da pesquisa foi essencial para impedir uma epidemia mais grave. A revista Nature colocou Celina entre os dez cientistas mais importantes em 2016. (DG)

Adolfo Lutz (1855-1940)

Filho de suíços, Adolfo nasce no Rio, mas aos 2 anos vai à Suíça. Forma-se em medicina na Universidade de Berna em 1879. Após três anos como especialista em hanseníase no Havaí, volta ao Brasil e dirige o Instituto Bacteriológico (atual Instituto Adolfo Lutz) em São Paulo. Lutz é chamado por Oswaldo Cruz para o Instituto Manguinhos. Participa de expedições para pesquisar epidemias no Nordeste e no Sul. Dedica a vida ao combate de doenças como malária, esquistossomose e febre amarela, da qual confirmou a transmissão pelo mosquito Aedes aegypti. É referência no estudo do poder terapêutico das plantas brasileiras.

Reportagem publicada na edição 68, lançada em junho de 2019

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